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Teimosa esperança

É preciso perseguir e acolher, sempre, a esperança com uma espécie de teimosia. Foi em tempos difíceis que os profetas anunciavam a teimosa esperança. Ainda que o cenário possa parecer sombrio e não projete esperança, é preciso “esperançar”, como nos ensinou Paulo Freire. O dicionário Houaiss designa o termo esperança como “sentimento de quem vê como possível a realização daquilo que deseja, aquilo ou aquele de que se espera algo, em que se deposita a expectativa; promessa”.

A Palavra de Deus nos diz que Abraão, aquele inquieto e errante homem, que se nutria da confiança em Deus e que demorou a ver sinal de descendência, “esperando contra toda esperança, creu e tornou-se assim pai de muitos povos” (Rm 4,18). E a Palavra nos assegura que a virtude comprovada pela perseverança, fruto das tribulações, produz a esperança (cf. Rm 5,4). Portanto, a esperança é real e nos sustenta sempre, porque ela jamais nos decepciona, uma vez que “o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5).

A esperança é também uma espécie de gafanhoto, com asas anteriores largas e antenas longas e finas. É, em geral, de cor verde, embora haja outras espécies de cores variadas, podendo sempre se camuflar na vegetação onde se encontram. Certamente, a partir da coloração do inseto, vem a associação da esperança com a cor verde. Clarice Lispector escreveu um belo conto intitulado Uma Esperança. Assim ela se refere: Aqui em casa pousou uma esperança, não a clássica que tantas vezes verifica-se ilusória, embora mesmo assim nos sustente sempre, mas a outra, bem concreta e verde: o inseto”.

A poetiza nos deixa escapar que é a esperança que nos sustenta. Sim, somos sustentados por uma esperança que nutre nossos sonhos, nossos projetos, nosso futuro. A esperança é característica de nossa vida terrena. Uma das mais conhecidas frases de Dante Alighieri, em sua Divina Comédia, é encontrada na porta do inferno: “Deixai aqui, ó vós que entrais, toda a vossa esperança” (Inferno, canto III,7). Talvez Dostoievski pensasse nesta frase quando descreveu o inferno, em sua magistral obra Os Irmãos Karamázov, como “o sofrimento por não poder amar mais” (2ª ed., Abril Cultural, p. 236). O inferno, assim compreendido, seria a falta de esperança na possibilidade de amar.

O Apóstolo Paulo nos diz, no seu belíssimo Hino da caridade, que perderemos muitas das seguranças que nos mantêm em nossas zonas de conforto: as profecias desaparecerão, as línguas cessarão e a ciência também desaparecerá. E nos garante: “Agora, portanto, permanecem fé, esperança, caridade. Essas três coisas. A maior delas, porém, é a caridade” (1Cor 13,13). Sabia ele que, na visão face-a-face com Deus, não precisaremos mais da fé nem da esperança, porque nada haverá de mais sublime a acreditar e a esperar. Mas permaneceremos amando, com intensidade plenificada, mergulhados naquele que é o Amor sublime.

Esperança é a condição própria de quem caminha, não de quem já chegou à sua meta. Todos nós, que somos caminheiros, a exemplo do errante Abraão ou de Jesus, que estava sempre a caminho na sua missão salvadora, somos nutridos de esperança. É esta esperança que nos encaminha à fé no Deus fiel e nos faz encontrar o verdadeiro sentido da caridade, aquela virtude, por demais sublime, pois “jamais passará”. Vivamos, portanto, de esperança, que é nosso alimento nesta longa jornada empreendida a cada dia com renovado ardor. Afinal, “é na esperança que fomos salvos” (Rm 8,24).

O papa Bento XVI nos advertiu, na sua Encíclica sobre a esperança, que “da nossa ação nasce esperança para nós e para os outros; mas, ao mesmo tempo, é a grande esperança apoiada nas promessas de Deus que, tanto nos momentos bons como nos maus, nos dá coragem e orienta nosso agir” (SS, 35). Vale recordar o veemente apelo do Papa Francisco: “Não deixemos que nos roubem a esperança!” (EG, 86). Que a esperança seja constante em nossas vidas e que sejamos mananciais de esperança para nós e para os outros, saciando a sede de nossa gente.

Leão XIV alimenta nossa teimosa esperança: “Mesmo nas noites mais escuras, o Senhor suscita homens e mulheres capazes de não se resignarem e de perseverarem no bem: pessoas que protegem os mais fracos e abrem caminhos para a reconciliação. (…) Os cristãos veem as trevas e chamam-nas pelo nome, mas não ficam parados a contemplá-las: conhecem a luz e sabem que as trevas nem a receberam nem podem vencê-la (cf. Jo 1, 5). Por isso, mesmo onde parece que a dor tem a última palavra, servem o bem sustentados por uma esperança teologal que dá à realidade um horizonte e uma direção” (MH, 211).

Dom Geraldo dos Reis Maia
Bispo de Araçuaí

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