Palavra de Deus

Muitas pessoas são levadas a acreditar que Deus tenha escrito a Bíblia e a enviado pronta para a humanidade, como se ela tivesse caído do céu de paraquedas. A partir daí, partem para um fundamentalismo fechado a qualquer tipo de hermenêutica. No entanto, acabam fazendo sua própria interpretação, de maneira tendenciosa e distanciada do conjunto da Revelação. Quase sempre, ignoram a origem da Bíblia. Nesse caso, recomendo o estudo da obra “O que Jesus disse? O que Jesus não disse?”, escrita pelo historiador e especialista em Novo Testamento Bart D. Ehrman, entre outras obras que ajudam a compreender a origem e a formação da Bíblia.

No princípio, o que houve foi a experiência de fé. Antes que qualquer palavra fosse escrita, Deus escrevia a história de seu amor no coração das pessoas, por meio de suas vidas e de suas culturas. Deus se autorrevelava no seu profundo amor e em sua compaixão pelo ser criado. Essa experiência de Deus era tão intensa que passava a ser contada pela tradição oral, de geração a geração, durante séculos. Somente depois surgiam os primeiros escritos e, mais tarde, os primeiros livros, sempre com uma intenção teológica de iluminar uma nova fase da história do povo de Deus. O conjunto dos 73 (ou 72) livros da Bíblia surgiu quase sempre assim, com exceção de boa parte das epístolas.

Antes de aparecer o texto escrito, o que havia era a tradição oral. Foi pela Sagrada Tradição — por meio dos Santos Padres antigos, dos sínodos e dos concílios — que a Igreja discerniu e definiu o número dos livros inspirados, uma vez que surgiram muitos outros escritos, posteriormente denominados apócrifos. À luz do testemunho da Sagrada Tradição, foi-se discernindo, aos poucos e ao longo da história, quais eram os livros inspirados e quais não o eram. Como negar a Tradição da Igreja para ficar somente com a Escritura, se foi justamente a Sagrada Tradição que conduziu o discernimento pelo qual se definiu o cânon bíblico  e a acolhida da Sagrada Escritura?

Outras tradições cristãs negam a inspiração a alguns livros do Primeiro Testamento: Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc, I Macabeus, II Macabeus, e partes de Ester e Daniel. A tradição judaica já tinha dificuldades para acolher esses livros, especialmente por terem sido escritos fora do território de Israel, em outra língua que não o hebraico, e terem surgido depois de Esdras (458-428 a.C.). Desde a mais antiga tradição, nós, católicos, entendemos que esses livros também são inspirados.  Essa é a principal diferença entre a Bíblia católica e a Bíblia protestante, além da diversidade de traduções.

Sabiamente, a Igreja Católica nos ensina que uma só é a Revelação de Deus, que nós acolhemos por meio de dois canais: a Tradição e a Escritura. “A Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura constituem um só depósito sagrado da Palavra de Deus, confiado à Igreja”, nos diz a Dei Verbum (Constituição Dogmática do Concílio Vaticano II, sobre a Revelação), no seu número 10. Só chegamos às Sagradas Escrituras pela Sagrada Tradição e nem tudo que Deus revelou foi codificado nas Sagradas Escrituras. Também pela Sagrada Tradição temos acesso à Revelação de Deus.

É preciso ter cuidado e seguir critérios na interpretação da Palavra de Deus. Não é possível tomar uma palavra ou um versículo fora de seu contexto e de todo o conjunto da Palavra de Deus. Tudo e cada palavra precisa ser lido num conjunto maior, de acordo com a coerência da própria Revelação. Nisso, o Magistério da Igreja muito nos ajuda. Não podemos interpretar sozinhos, ao nosso bel-prazer, aquilo foi revelado para a humanidade. Não pode haver individualismos ou intimismos na interpretação da Palavra. É preciso “sentir com a Igreja” para discernir o que Deus está nos dizendo no hoje de nossa história.

A cada ano, a Igreja nos apresenta um dos livros das Sagradas Escrituras para nossa leitura, meditação, oração e contemplação. Para este ano de 2026, o livro escolhido foi Daniel. Trata-se de uma obra bastante complexa no seu contexto cultural e no seu estilo. Mesmo fazendo parte do conjunto dos livros proféticos, o texto nos apresenta um estilo diferenciado, mais numa perspectiva apocalíptica. O redator bíblico procura manifestar a Revelação de Deus, levando esperança ao povo que se encontrava em uma situação difícil, por meio de sinais enigmáticos, visões e metáforas. É preciso buscar compreender o texto dentro de seu contexto sociocultural,  a fim de evitar distorções.

O Livro de Daniel mistura relatos históricos anacrônicos, com visões e profecias. Mesmo localizado na Babilônia, o contexto do redator é a terrível dominação helênica. Fazendo análise histórica dos reinos que dominaram o mundo antigo, a profecia ressalta que o Reino de Deus supera todos os reinos e não terá fim (cf. Dn 7,14). Certamente, as narrativas mais conhecidas deste livro são: a interpretação do sonho de Nabucodonosor (Capítulo 2), a fornalha ardente (Capítulo 3), a cova dos leões (Capítulo 6), as visões proféticas de Daniel (Capítulos 7 a 12). Alguns temas importantes do livro de Daniel: permanecer fiel a Deus, mesmo em situações difíceis (Dn 3,16-18); confiar que Deus tem o controle sobre todas as coisas, incluindo os reinos humanos (Dn 2,21); importância de orar e buscar a ajuda de Deus (Dn 6,10).

No atual contexto em que vivemos, diante de reinos que impõem suas ideologias e procuram dominar países mais frágeis, submetendo-os a  pesados fardos para sexplorar suas riquezas, é preciso compreender que Deus tem a última palavra sobre a História. Os reinos terrestres passam, como é bem apresentado na narrativa da estátua de bronze (Dn 2,31-45), mas o Reino de Deus “jamais será destruído” (Dn 7,14). É para anunciar este Reino de Deus que foi enviado o Cristo, Jesus de Nazaré. Ele anunciou esse reino por meio de gestos, palavras, parábolas, ações e testemunho. Também nos deixou encarregados de continuar a sua missão no mundo, para que o seu Reino se estenda sobre a terra. Por isso, Jesus nos orientou: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e sua justiça…” (cf. Mt 6,33).

Dom Geraldo dos Reis Maia
Bispo de Araçuaí

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