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Ecos da copa

Aproxima-se o término da Copa do Mundo de futebol masculino, considerada a maior Copa de todos os tempos, com acontecimentos, reações e posturas que revelam lições. Um evento de especial destaque pelo número de seleções que reuniu, por sua realização em três países diferentes, ainda pelo expressivo número de torcedores e grande movimentação financeira, envolvendo o turismo, a economia e o mundo da comunicação. As repercussões desse torneio merecem reflexão, para bem aproveitar as lições que podem ajudar a civilização contemporânea a tornar-se mais justa e pacífica. Há de se dar devida atenção às denúncias de racismo, um mal que se camufla, de modo perverso, fazendo-se presente mundo afora. Entre as vítimas estão, inclusive, estrelas de destacadas seleções. Esse mal tem lugar, até mesmo, em regiões onde há ilusório pluralismo racial. Expressa-se na arrogância de torcidas, com refrões cantados nas arquibancadas que merecem adequada avaliação, juízos e providências cabíveis.

Na contramão de todo preconceito, nos cenários da Copa brilharam nações pequenas e empobrecidas, com populações que, muitas vezes, são discriminadas. Seleções que, a partir de seu desempenho, demonstraram o vigor e a seriedade com que suas nações constroem suas vidas, mesmo vítimas de colonizações que exploraram à exaustão a sua dignidade e os seus recursos. Os jogadores que representaram esses países mostraram galhardia, autêntico patriotismo, mesmo não usufruindo de quantias de dinheiro astronômicas e vergonhosas: um acúmulo desmedido de riquezas que tem servido, inclusive, para efetivar narrativas que se valem do nome de Deus para gerar manipulação. As nações mais pobres que disputaram com dignidade a Copa têm muito a ensinar àqueles que somente almejam acumular riquezas e, consequentemente, não “dão conta do recado”: frustram a expectativa de multidões de torcedores, ancoram-se em uma compreensão torta sobre o que significa a bênção de Deus, para justificar a vida luxuosa, a busca pelo reconhecimento social por meio dos bens que consegue acumular.

Por falta de preparo humanístico, de um adequado sentido pátrio, rifa-se o compromisso de lutar com “fibra” e garantir desempenhos dignos de vitória, não apenas pelo fato de vencer uma partida de futebol, mas por buscar realizar bem o que é essencial à própria profissão. Essa fragilidade agrava-se pela sedução das grandes empresas que promovem verdadeira escravização da imagem e da reputação pessoal. Assim, o esporte perde seu lustro e sua propriedade de congregação fraterna. Apesar disso, a Copa mostrou torcidas apaixonadas, movidas pela força de corações patrióticos e admiradores da arte própria do futebol. Muitas vezes, torcidas diferentes ocupando o mesmo espaço comprovaram que diferenças não significam inimizades ou justificam a perseguição de adversários, mas oportunidade de crescimento e novas conquistas. A alegria apaixonada dos torcedores nos estádios tem uma distância enorme da manipulação e redução do esporte ao preço de passes e a salários astronômicos mensais.

A valorização pessoal enjaulada na sedução de se ganhar muito, mais e sempre mais, não inspira as atuais e novas gerações a conquistar uma envergadura social relevante, a riqueza maior. Felizmente, existem exceções: atletas que recebem altos salários, mas buscam comprovar a sua grandeza por outros caminhos, sem querer demonstrar poder pela ostentação. Estrelas com notável envergadura moral. São aqueles poucos que alimentam a postura ética de não se deixar instrumentalizar, não se colocam a serviço de apostas que iludem para simplesmente enriquecer oligarquias. Um tema que merece ser rediscutido na sociedade e contar com a ajuda séria de instituições legislativas, para que sejam tomados rumos novos. Essas novas direções devem ser descobertas com investimentos educacionais capazes de colocar em curso uma profunda reformulação cultural, de modo a mobilizar cidadãos para a necessidade de se construir cada vez mais cenários de igualdade, superando exclusões.

A Copa termina, mas permanece no horizonte o desafio de enfrentar autoritarismos, como os que se expressam nas interferências governamentais inoportunas, acatadas, certamente, por medo de retaliação ou por conivências interesseiras, sobretudo do ponto de vista econômico. O horizonte sedutor do dinheiro compromete o genuíno sentido de amor à pátria. Passa-se a valorizar mais os recursos bilionários no bolso de poucos, em detrimento da qualidade educacional, da promoção e amparo aos bens culturais, a tudo que se relacione ao bem comum. Todas as instituições, e não somente o universo que se dedica ao esporte, têm nos ecos da Copa um itinerário de redimensionamento, para reavaliar posturas, funcionamentos e rumos. O principal torneio de futebol, em sua edição com maior número de seleções, marcante pela expressiva presença de torcedores, realização em três países, deve continuar a reverberar, mesmo após a sua conclusão. Assim, as derrotas dentro de campo podem trazer lições essenciais a uma reação, dentro e fora das quatro linhas. Ainda mais importante: os ecos da Copa tenham incidência na vida social, inspirando caminhos para que sejam superados os preconceitos, a idolatria ao dinheiro, os autoritarismos, males que impedem o mundo de ser mais justo, fraterno e solidário.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

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