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Trevas passam, brilhe a luz

A celebração da Paixão e Morte de Jesus, o Redentor, na Sexta-feira Santa, emoldura as trevas que envolvem o mundo com um silêncio profundo, incômodo e restaurador, para fazer brilhar, definitivamente, a luz da vida plena, por Ele garantida do alto do madeiro. A cruz é instrumento de suplício dos condenados, transformado em altar, onde Cristo é a vítima, também o sacerdote que oferece e conquista a definitiva expiação. A grandeza deste mistério assenta-se sobre o amor de Deus pelos seus filhos e filhas, pela oferta do Filho Amado, fazendo brilhar a luz da vida para dissipar as trevas – que passam. Indispensável é acolher e encharcar-se do silêncio respeitoso deste dia, fecundando a compreensão essencial sobre a experiência de ressurreição que leva a humanidade a uma nova poesia com o poder de encantar o viver humano. Uma qualificação espiritual e existencial indispensável, pois leva a grandes transformações no coração de cada pessoa, tornando-a instrumento do amor maior no mundo contemporâneo, ameaçado por muitas trevas.

Trevas que impõem significativas perdas, ameaçando um viver qualificado, conforme a vontade de Deus. O silêncio sepulcral da Sexta-feira da Paixão é o caminho de uma experiência que tem propriedades para fazer brilhar a luz da vida, promovendo um novo tempo ao ser humano, dissipando as trevas. O cenário inspira a compreensão insubstituível evocada pelo Salmista, quando recorda, no Salmo 21, a concepção de cada indivíduo, agasalhado no seio maternal, dado à luz como dom de Deus. Nasce, pois, a indicação da oração, experiência para mergulhar no mistério da paixão e morte do Senhor Jesus, alcançar o perdão dos pecados, vencer tentações, fazer cessar as perseguições, reconfortando os ânimos abatidos, alegrando os generosos, firmando os passos dos peregrinos. Oração é experiência tão forte e incomparável que a mística cristã não hesita em afirmar: a oração alcança o próprio Deus.

Nasce o compromisso de proclamar as benevolências de Deus para atrair, de seu amor, benevolências ainda maiores. O grande silêncio de hoje é um deserto para o coração que quer buscar a si mesmo, para fazer a redentora experiência de uma criatura solitária e pobre, dependendo unicamente de Deus, sem qualquer grande projeto que se interponha entre a criatura e o Criador. Muitos temem e se incomodam com o silêncio como experiência de deserto, alimentados pela ilusória convicção de que o barulho e o falatório garantem libertação do peso dos desesperos que afligem o dia a dia. Assim, os iludidos recorrem a soluções que comprometem a vida – a própria, a do outro, sobretudo dos pobres. O silêncio vivenciado é a experiência de uma sabedoria com força para esmagar o desespero, distanciando o risco de soluções comprometidas e estreitadas por sentimentos que inviabilizam gestos concretos de fraternidade universal. Essa luta é a solidão do coração humano com a garantia de ter Cristo ao lado, o Cristo que experimentou a solidão do Horto das Oliveiras e prosseguiu na obediência amorosa de Deus – Seu Pai.

A certeza de Cristo presente ao lado de cada pessoa ilumina a compreensão sobre o amoroso gesto de Jesus, que assumiu uma verdadeira e integral humanidade, em todos os sentidos. Humilhado, desprezado, aflito, entristecido, foi crucificado, suportando o sacrifício terrificante da morte na cruz para curar feridas de todo homem e mulher, vencendo a morte. O desafio humano do medo e do horror do sofrimento é iluminado pela experiência de Jesus, dirigindo-se a seu Pai, no ápice de sua experiência de abandono, quando, orando e envolto em um profundo silêncio, diz: “Pai, se queres, afasta de mim este cálice”. E completou, elevando a condição da humanidade: “Contudo, não seja feita a minha vontade, mas a tua”. As palavras de Jesus, conforme diz São Leão Magno,

instruíram todos os fiéis, inflamaram todos os confessores, coroaram todos os mártires, convocando todos para ouvi-las. Cabe, na experiência deste dia santo, chamar pelo nome Aquele que é a razão de um grande silêncio, para ouvir sua voz pronunciando o nome de cada um. Uma experiência possibilitada por uma vida silenciosa, mais distante do caos promovido por sons e falatórios.

Silenciar-se hoje, de modo especial, fecundando os outros dias, é encontrar o caminho de uma vida compreendida como oferta de si, cotidianamente. O silêncio dissipa as trevas e faz brilhar a luz, especialmente a luz de fazer da vida uma oferta, temperada pela sabedoria de estar sempre presente diante de Deus. É hora de vencer o medo do silêncio. Ao contrário, vale procurar o dom do silêncio, vencendo o medo da solidão, para experimentar o poder da oração, vivendo da presença amorosa e redentora de Deus, desdobrada em gestos de amizade social. Com força e confiança, cada coração, em íntima conexão com o coração de Jesus, volte o olhar para o alto da cruz e ore com sabedoria. O medo do silêncio seja vencido para que o coração humano encontre uma pérola: o viver qualificado, fazendo com que cada momento se torne uma nova vitória em que brilhe a luz de Cristo, alimentando a coragem de se aproximar Dele, ser iluminado por Ele.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

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