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A missão de Judas Iscariotes

Jesus chamou doze discípulos e deu-lhes o poder para expulsar os espíritos maus e para curar todo tipo de doença e enfermidade. O Evangelho apresenta o nome dos doze Apóstolos, sendo Simão Pedro o primeiro e o último Judas Iscariotes (cf Mt 10, 1-8). Matheus descreve a missão destes enviados. Não era uma missão pequena. Cada um deles entrou, com certeza, de corpo e alma naquela missão que lhe fora confiada.

Quero dar destaque ao apóstolo Judas Iscariotes que é lembrado apenas pelo seu fim trágico, mas ele foi merecedor da confiança de Cristo que o chamou e o enviou. Ele foi pregador da palavra de Deus e certamente, como os outros, expulsou espíritos maus, curou doenças e enfermidades, anunciou que o Reino de Deus estava próximo, ressuscitou mortos, purificou leprosos, de graça recebeu e de graça deu. Essa foi a missão dada por Jesus aos doze e como Judas era um deles podemos deduzir que ele realizou essa missão com os outros. Não existe, no Evangelho nenhuma menção de que Judas não tenha cumprido que o Mestre pediu.

Certamente não se desconfiava do que poderia acontecer com Judas e ele mesmo não imaginava o que estava pela frente. Ele esteve na última Ceia e nem mesmo ali pairava alguma suspeita, apenas ele e Jesus sabiam. Tudo era interno, tudo estava escondido no seu interior. Quando Jesus anunciou a traição todos começaram a perguntar “acaso serei eu, Senhor (Mt 26,22)?”. Ninguém desconfiava e todos poderiam ser um potencial traidor, embora todos estivessem, até então, cumprindo o que o Mestre pedira.

A missão de Judas nos faz pensar no exterior e no interior do ser humano. Há muitos revestimentos que encobrem a nossa personalidade e fortalecem a revelação do nosso cárter. É por isso que Paulo nos exorta a revestirmos de Cristo e termos em nós os mesmos sentimentos do Mestre, nos identificando com Cristo na aparência e na essência.

No exterior Judas exercia tudo o que os outros faziam. Não sabemos o que se passava no seu interior. Ele fez o bem a muitas pessoas. O Evangelho não diz como surgiu nele os sentimentos de traição, mas aos poucos foi crescendo nele o desejo de entregar o Mestre, de abandonar tudo e não avistar mais nenhum horizonte a não se o das trinta moedas. Certamente ele não pensava que tudo poderia chegar ao trágico fim que viria depois da traição culminando no seu suicídio.

Quando se perde o rumo, quando se trai o Mestre, quando se põe outros objetivos distante dos grandes valores, quando se apaixona profundamente por uma ideia que não vem da luz, corre-se o risco de fazer o que antes estava escondido internamente, em forma potencial. Tudo para Judas terminou num trágico arrependimento que o levou à morte. Judas nos faz pensar no trajeto da luz para trevas, na figura de um evangelizador que não se reabasteceu ao longo do caminho, que não permaneceu em Cristo, pois Jesus exortou a permanecer nele para produzir os frutos (Jo 15,4) e ainda mais, recordou que sem ele nada se pode fazer (Jo 15,5).

É preciso perguntar se não estamos sendo evangelizadores Judas. O anúncio que Judas fez não iluminou seu interior até o fim. Certamente recebeu a luz por um longo período de sua vida e foi transmissor desta luz e da alegria a muitas pessoas. Imaginemos a chegada de Judas em uma casa, em um povoado, o seu encontro com um enfermo. Quanta esperança havia!

Sua mensagem continua ecoando. Com certeza a misericórdia de Deus o encontrou, no final de tudo. Não compete a nós o condenarmos por ele ter entregue o Salvador para ser morto.

Rezar a missão de Judas nos conduz ao amadurecimento. Nos faz pensar como nossa missão pode terminar, no que as pessoas vão dizer de nós quando morrermos. Mas, também valer pensar, como Deus nos verá depois da nossa morte? Talvez como Jonas é preciso recolher-se por três dias para redirecionar a missão.

Dom Messias dos Reis Silveira

Bispo de Teófilo Otoni

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