Resgates no tesouro

A Igreja Católica possui um precioso tesouro edificado ao longo de sua história, com mais de dois mil anos, a partir da Palavra de Deus, da Tradição, de testemunhos e profecias. Um tesouro que incide sobre culturas diferentes, inspirando homens e mulheres de todo o planeta, no decorrer da história, ampliando horizontes com a partilha de valores e princípios fundamentais. A Igreja também é interpelada pelas transformações antropológico-culturais, tecnológicas e sociopolíticas da humanidade. Mudanças que a desafiam a oferecer novas respostas ao ser humano, resgatando as preciosidades de seu tesouro. A Igreja, deste modo, sempre se renova, alicerçada nas suas bases fundamentais. Uma renovação que ocorre a partir do contínuo desenvolvimento de sua competência para dialogar, em diferentes processos dedicados à escuta da sociedade. Nessa perspectiva, a Igreja Católica vive momento singular, com a realização da 16ª Sessão Ordinária do Sínodo dos Bispos, em Roma, de 4 a 29 de outubro. Um processo que envolveu etapas precedentes, com a participação de pessoas do mundo inteiro, em cada lugar onde a Igreja Católica, no serviço à vida, anuncia o Evangelho.

O processo de escuta para a realização do Sínodo foi amplo, contemplando pessoas de perspectivas diferentes, com contribuições iluminadas pelo resgate do tesouro da Igreja. As dinâmicas do Sínodo efetivaram, assim, especial experiência de comunhão e participação, a serviço da vida, para cumprir o mandato de Nosso Senhor: “Vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância.” São esperados significativos desdobramentos do caminho sinodal – novas respostas, práticas, procedimentos transformadores, capazes de fortalecer a Igreja na sua missão em ajudar o mundo a se abrir ao amor de Deus, contribuindo para que a humanidade consiga viver experiências novas de solidariedade e fraternidade. É, pois, muito importante a realização da assembleia sinodal em Roma, congregando multifacetada representação. Um acontecimento singular na vida da Igreja, a ser acompanhado com orações e interesse, sem resistências. Todos confiantes de que as renovações a serem alcançadas fundamentam-se nos princípios que guiam a Igreja desde a sua origem, sem riscos de se perder o que é inegociável.

Sublinhe-se a grande mobilização para que o Sínodo reúna grande número de participações, exercício de escuta feito pela Igreja para construir diálogos que levem a entendimentos novos. Em comum com os mais diferentes segmentos, partilha-se o sonho de se construir nova realidade, baseada no respeito, na participação, na inclusão, para que haja harmonia entre as diferenças. O grande propósito é o resgate da condição sinodal própria da Igreja Católica, considerada a sua natureza, desdobrando-a em práticas com força especial de oferecer o Evangelho de Jesus Cristo, a partir de dinâmicas que gerem comunhão e participação. É possível inspirar diferentes segmentos e instituições, no cumprimento de sua identidade e missão, a promover a vida. A realização do Sínodo, convocado e presidido pelo Papa Francisco, busca o envolvimento de todos na tarefa de resgatar valores e experiências que são pérolas da fé cristã católica – caminho para que a Igreja seja cada vez mais, vigorosamente, missionária.

Oportuno sublinhar a afirmação do Papa Francisco: o caminho da sinodalidade, que significa “caminhar juntos”, é precisamente o caminho que Deus espera da Igreja neste terceiro milênio. Requer uma atualização da Igreja, como já propôs o Concílio Vaticano II, realizado de 1962 a 1965. Essa renovação é dom e tarefa, capaz de avaliar modos de se aprender a viver a comunhão na contemporaneidade, estimulando a participação e a ação missionária. A tarefa assumida pelo processo sinodal é conseguir que todos aprendam, sempre mais, a “caminhar juntos”. O que significa, e como se pode, caminhar juntos? Eis uma interrogação que atinge a dimensão organizacional da Igreja, seus procedimentos participativos, com repercussões na qualidade espiritual e mística de cada um que se faz caminhante. Uma adequada resposta pede a competência humana para estabelecer diálogos capazes de romper fronteiras, reconfigurar posturas e iluminar a compreensão de que não se pode sacrificar a vida, o meio ambiente, promover manipulações ideológicas para justificar privilégios. Essa competência está a serviço da inclusão social, para superar todo tipo de injustiça.

O complexo e exigente processo sinodal, com resgates no tesouro da Igreja, somente pode cumprir o seu propósito se for vivido sob a moção do Espírito Santo de Deus, exigindo a atitude insubstituível de sempre colocar-se à sua escuta. Só por Ele se pode pretender a colheita de frutos esperados. Assim, não é um simples parlamento de opiniões divergentes e convergentes. A assembleia sinodal é um exercício espiritual articulando a inteligência humana, os confrontos com a realidade e a abertura à ação de Deus. Por esta singularidade espiritual é que se poderá alcançar o propósito essencial de testemunhar o amor, garantir a oportunidade de expressão aos que se encontram à margem. Homens e mulheres que precisam ser ouvidos para o amadurecimento de todo o Povo de Deus.

Discernir, encontrar a variedade de dons e carismas concedidos pelo Espírito Santo em benefício da comunidade de fé e de toda a família humana, intuir o cultivo de ações e modalidades que alavanquem a construção de um mundo mais belo e habitável, superando preconceitos e posturas que não se enraízam no Evangelho de Jesus – eis importantes propósitos do caminho sinodal, que busca, ainda, encontrar meios de regeneração das relações humanas, em um mundo tão plural. Desse modo, fortalecer comunidades, culturas e toda a sociedade. O Sínodo é, pois, investimento para efetivar resgates do tesouro de valores e princípios da Igreja, na tarefa de edificar novo tempo neste terceiro milênio.


Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

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