
O Papa Leão XIV interpela a civilização contemporânea sobre a magnificência da humanidade com a sua primeira Carta Encíclica: interpelação pertinente neste mundo desembestado que precisa se ancorar em princípios inegociáveis. Luminosa é a evocação de princípios que configuram a Doutrina Social da Igreja, magistério de alta relevância com força para qualificar governos, segmentos variados da sociedade e relacionamentos interpessoais em uma sociedade multicultural. A Doutrina Social da Igreja deveria ser um vade-mécum orientador de posturas, discernimentos e tomadas de decisão, reunindo cinco princípios inegociáveis: a priorização do bem comum, a destinação universal dos bens, a subsidiariedade, a solidariedade e a justiça social. Cada princípio reza indicações e horizontes que, seguidos, têm propriedades para qualificar cidadanias, nortear atitudes e construir relações que levem em conta importante verdade: todo ser humano é imagem e semelhança de Deus-Criador, cada pessoa é admiravelmente restaurada pela morte e ressurreição de Jesus Cristo, o Salvador. Uma verdade doutrinal que alicerça o sentido de irmandade solidária, necessário para se poder buscar um outro mundo possível.
A imagem e semelhança das criaturas em relação a seu Criador é uma verdade que não declina, com propriedades que orientam, de forma sábia e com lucidez, a vida dos fiéis. Mas interpretar “as coisas novas da atualidade à luz da dignidade fundamental da pessoa humana é um enorme desafio contemporâneo”, sublinha o Papa Leão. Por isso, é importante sempre retomar os princípios da Doutrina Social da Igreja, capazes de inspirar urgentes transformações na sociedade. O Papa convoca, especialmente, as instituições acadêmicas a dar novo impulso a esses princípios neste contexto de mudanças radicais. Um ponto de partida determinante é reconhecer que todos precisam ser respeitados, indistintamente, pois partilham a mesma dignidade inalienável, com direitos que nenhum poder humano deve ferir ou eliminar. A partir desse reconhecimento, percebe-se a necessidade de se reconfigurar modos de convivência, respeitando, de forma mais efetiva e abrangente, o bem comum. Isso significa sair do mundo estreito dos próprios interesses e engajar-se na luta pela superação das inaceitáveis desigualdades sociais, considerando especialmente as dores dos pobres.
O Concílio Vaticano II orienta sobre o significado do bem comum: consiste no conjunto das condições da vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada pessoa, alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição. Trata-se de um bem que pertence a todos, construído em conjunto salvaguardando direitos e necessidades básicas de todos os cidadãos. A meta da ação social é fazer com que o bem comum seja verdadeiramente partilhado e promovido, para além de interesses meramente individuais, procurando o progresso de todos em uma ação interdependente, com força de incidir para além da organização social igualitária até se atingir uma reconfiguração das circunstâncias sociais sem discriminações, exclusões e esbanjamentos inócuos e reveladores de vazio existencial. A busca do bem comum dá vida nova à sociedade fomentando o ethos da corresponsabilidade: cada cidadão assume a responsabilidade de contribuir na construção de seu contexto social.
Papa Leão lembra que a prioridade é trabalhar em conjunto na busca do bem de todos, por meio de um projeto partilhado. Exige-se e supõe-se um permanente e aberto diálogo, sem artimanhas, para que todos caminhem juntos. Importante é ressaltar a responsabilidade do Estado na promoção da unidade e na organização justa da sociedade civil. O Papa ressalta a tarefa do poder público de cuidar da delicada harmonização da
justiça, considerando os diferentes interesses em jogo, a busca de equilíbrio entre bens particulares e os bens da coletividade. Neste horizonte, o Pontífice também adverte quanto ao risco de a política renunciar a uma visão de longo prazo, reduzindo-se a cálculos de curto alcance ou a estéreis polarizações. Essa renúncia faz com que discursos percam credibilidade, ajuda a acentuar desigualdades e fraturas sociais. A advertência de Leão XIV vai mais longe quando se considera a política internacional que, muitas vezes, alimenta lógicas de contraposição e de agressividades. Consequentemente, contribui para acentuar a distância entre os povos.
A construção do bem comum exige cooperação de muitas formas, salvaguardando o bem de todos, sem anular pluralidades de povos e Estados. Não se pode perder o respeito pelo semelhante, deixando-se dominar pela irracionalidade que, entre outros males, sustenta tentativas de subjugar ou eliminar nações. O exacerbado individualismo, alimentado por uma concepção de economia dominada pela idolatria do dinheiro, promove revezes na tarefa de se promover o bem comum. Quando o dinheiro domina, sem deixar lugar para parâmetros éticos, desconsidera-se o bem comum. Não se consegue mais reconhecê-lo como princípio moral primário, perdendo sua incidência na cultura, com repercussões no conjunto de ações e práticas que definem a vida de um povo, de uma nação. Deve-se investir justamente para que o bem comum se torne base capaz de definir a cultura em seu conceito mais abrangente, relacionado ao conjunto de valores, princípios e modos de viver que constituem a vida de um povo. Assim, abre-se o horizonte para buscar um mundo novo possível, articulado com os demais princípios da Doutrina Social a serem aprofundados e bem estudados. Um mundo em que são respeitados os fundamentos reunidos na Doutrina Social da Igreja: princípios inegociáveis.
Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte





