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Vingança e perdão

O ser humano, em geral, nutre sede de vingança. Quando nos sentimos agredidos, desejamos vingar-nos das pessoas que nos ofendem. Desse desejo pode brotar – e quase sempre brota – um ódio violento, capaz de fazer-nos escravos da vingança. Penso que isso esteja relacionado ao instinto de sobrevivência. Em nosso modelo de justiça, deparamo-nos mais com um tipo de justiça retributiva do que compensatória, e nossa prática penal acaba sendo mais punitiva do que regenerativa. Mas já foi pior. Alhures, quem se sentia ofendido assumia o direito de vingar-se sem medida, até que se implantou a lei do talião: “vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé” (Dt 19,21b), restringindo o direito de vingança. Porém, essa prática foi superada pela caridade, que é a plenitude da lei (cf. Rm 13,10). Eis o ideal da ética evangélica!

Elektra, ópera de Hugo von Hofmannsthal, baseada na tragédia grega Agamenon, de Sófocles, com música de Strauss, representa bem essa situação antropológica de vingança. As tragédias gregas são espetaculares na arte de traduzir os dramas humanos. Elektra, personagem de mente atormentada, personifica o desejo de vingança. Seu pai, Agamêmnon, retornara da Guerra de Troia. Para lá tinha ido, a bordo de um dos mil navios de guerra, em solidariedade a seu irmão Menelau, que teve Helena, sua esposa, encantada e raptada por Páris, de Troia. Tendo vencido a guerra, após derrotar Heitor, empregar a tática do “presente grego” e descobrir a fragilidade do calcanhar de Aquiles, Agamenon retornara para os braços de sua amada, Clitemnestra, que era irmã de Helena. O herói ignorava que, no decorrer daqueles dez longos anos de sua ausência, Egisto havia ocupado seu leito nupcial. Agamenon foi brutalmente assassinado pela própria esposa e o amante dela.

Elektra passou a alimentar a esperança de que seu irmão, Orestes, procedesse à vingança naquela casa. Mas seu irmão havia sido banido de casa, por medo de sua mãe. Mesmo em terras de exílio, Orestes corria risco de morte. Num belíssimo diálogo de Elektra com Clitemnestra, a jovem descreve um ritual de sacrifício para sanar os terríveis pesadelos que envelheciam sua mãe. Não se tratava de um sacrifício animal, mas humano. Aqueles pesadelos só poderiam ser superados mediante o sacrifício de uma mulher livre, já tocada por homem, a ser realizado a qualquer hora do dia ou da noite, por um homem. De fato, Orestes consegue retornar e realizar o ritual da vingança, matando sua própria mãe e o amante dela. Mas aquele não foi um sacrifício redentor. Os espectros continuaram a rondar aquela casa, que jamais teria paz.

É interessante que o compositor, colocando 111 instrumentos na orquestra, conferiu uma dramaticidade sensacional à ópera. Conseguiu, assim, expressar a mente atormentada de Elektra, a fragilidade, a inconstância e a temeridade de Clitemnestra, bem como a presença fantasmagórica de Agamenon na mente de sua filha que clamava por vingança. Espetacular! Mas persiste o tom grave da ausência de paz, pois sangue derramado não se sacia com mais sangue derramado. O ato de vingança atrai mais maldições. Sangue tem odor de mais sangue!

Esta ópera nos ensina a rever e a superar nossos conceitos de justiça e de direito. Nossos olhos se voltam para o Evangelho, que nos traz uma dramática advertência: “Se vossa justiça não ultrapassar a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos céus” (Mt 5,20). Somente o ritual do sacrifício do perdão, da solidariedade e da compaixão pode ser redentor. É este o ritual que substitui o ritual de vingança e, justamente por isso, se torna capaz de nos conceder a verdadeira paz de espírito!

Jesus Cristo realizou um ritual de sacrifício, não, porém, de vingança. O dia de vingança de Deus, o “dies irae”, anunciado pelas profecias, tornou-se o dia da misericórdia, que é a justiça de Deus. Jesus foi traído, foi negado e abandonado por quase todos os seus seguidores e foi crucificado cruelmente. Ele tinha todas as razões para vingar-se de seus algozes e de seus discípulos. No drama da cruz, suspenso entre o céu e a terra, seus lábios pronunciaram palavras de perdão e de misericórdia. Diante da atrocidade de seus algozes, Jesus rezou: “Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Diante do ladrão, ele sentenciou: “Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso” (Lc 23,43). Pela força do perdão, Jesus não levou consigo a mágoa de quem foi ofendido.

No encontro do Crucificado-ressuscitado com seus discípulos, ele tinha tudo para cobrar deles a covardia de suas atitudes, mas Jesus só tinha palavras de perdão e de misericórdia. Mostrou-lhes as mãos e os pés perfurados pelos pregos, e o lado aberto pela lança do soldado, como quem ostenta um troféu após a vitória (cf. Jo 20,20a), após transmitir-lhes a paz (cf. Jo 20,21). As marcas da cruz não clamam por vingança, porque já foi concedido o perdão. O Ressuscitado só pode transmitir a paz porque havia perdoado. Não havia rancor em seu coração.

O lado dilacerado se torna abrigo para acolher os fragilizados pela inconstância e pelas incoerências da vida: “Vinde a mim todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo e vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vossas almas…” (Mt 11,28-29).

Eis o nosso desafio: perdoar e acolher… É essa a fonte da paz interior, condição para se edificar a paz no mundo. Aprendemos com Jesus a ter essas duas atitudes que mudam nossa relação conosco mesmos, com as pessoas de nosso convívio e com o mundo que está à nossa volta.

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