
Gioachino Rossini já havia decidido suspender sua breve carreira de compositor, após compor algumas de suas grandes óperas. No entanto, aceitou o desafio apresentado pelo espanhol Manuel Fernández de musicar a belíssima sequência redigida por Jacopone da Todi, denominada Stabat Mater. Compôs uma verdadeira ópera, à maneira das óperas italianas, com solos, coro e orquestra. A inauguração desta belíssima obra musical religiosa se deu em Paris, em 1842.
O resultado da ópera se apresentou denso, profundo e dramático, conjugando muito bem poesia e musicalidade. O cenário é o Gólgota e a atenção principal se volta para a presença de Maria diante de seu filho pendente na cruz. Ali, é postado um suposto narrador, que expõe sua contemplação em tons de singeleza e grande sensibilidade. É impressionante a força da descrição das emoções da Mãe diante do Filho crucificado, “imersa em angústia mortal, geme no íntimo do coração traspassado pela espada”. Descreve a grande dor daquela que é bendita entre as mulheres, contemplando seu Filho morrer em sua última hora.
Alguns dos versos são compostos com viva realidade. “Ó Mãe, fonte de amor,/ faça com que eu viva o teu martírio,/ faça com que eu chore as tuas lágrimas.// Faça com que arda o meu coração/ no amar o Cristo-Deus,/ por ser-lhe agradecido.// Te rogo, Mãe santa:/ sejam impressas no meu coração/ as chagas do teu Filho”. Assistindo à execução de Stabat Mater, somos remetidos espiritualmente àquele cenário salvífico, como se visualizássemos, pelas vívidas descrições do narrador, as sensações de Maria diante da cruz, junto a seu Filho: “Contigo deixe que eu chore/ o Cristo crucificado/ até que tenha vida”.
É interessante que, embalado pela musicalidade de Rossini e pela beleza dos versos de Jacopone, o expectador se coloca em atitude de oração, junto ao suposto narrador, dirigindo-se a Maria: “Faça-me portar a morte de Cristo,/ participar de seus sofrimentos,/ adorar as suas chagas santas.// Fira o meu coração com as tuas feridas,/ estreita-me à sua cruz,/ inebria-me do seu sangue”. É impressionante a dramaticidade da cena e o apelo à oração.
Nos três últimos versos, o compositor faz o narrador dirigir seu olhar para o futuro da salvação, para a escatologia, aquelas realidades que ainda estão por acontecer: “No seu retorno glorioso/ permaneça, ó Mãe, ao meu lado,/ salva-me do eterno abandono.// Ó Cristo, na hora da minha passagem/ faça com que, pelas mãos de tua Mãe, eu chegue à meta gloriosa.// Quando a morte dissolve o meu corpo/ abre-me, Senhor, as portas do céu,/ acolhe-me no teu reino de glória”. E o “Amém” final é uma apoteose de emoções, segurança e confiança no Salvador, sob o olhar terno e materno de Maria.
Naquele cenário do Gólgota, travou-se a dramática cena redentora da Paixão e morte de Jesus Cristo, assistido por Maria, sua mãe e discípula, que “perseverou até depois do fim”, pois susteve, em seus braços firmes, o corpo inerte de seu Filho bendito. Permaneceu fiel no seu seguimento, convivendo com os apóstolos e anunciando o Ressuscitado. Por isso ela se tornou inspiração de vida cristã, modelo da Igreja, Rainha dos Apóstolos. Que a Senhora das Dores nos conduza na Via Crucis de Jesus Cristo, para que possamos participar de sua Páscoa — vida nova do Ressuscitado —, luz para a Via Crucis da humanidade, até alcançarmos a Via Lucis.
Pobre de mim que me aventurei a partilhar um pouco das emoções que tive ao assistir esta indescritível peça de arte sacra, anos atrás. Não sou poeta nem latinista, muito menos músico; daí a pobreza de minha descrição. Sou apenas um entusiasta da arte, inebriado pela beleza da fé na salvação cristã. Deixo aos leitores e às leitoras o convite para assistir ou ouvir Stabat Mater, de Rossini, nesta “Semana das Dores de Nossa Senhora”, e extrair desta primorosa obra de arte suas próprias impressões.
A partir do olhar compassivo e solidário do expectador, contemplemos a mesma cena do Gólgota que teima a repetir-se a cada esquina, a cada morro, nos mocambos, nas favelas, regiões de guerras, quilombos e territórios indígenas… Marias continuam a contemplar a agonia de seus filhos, que morrem aos poucos, tragados pelas cruzes das coisas novas do tempo presente, com aquela mesma dramaticidade do Stabat Mater. As situações são novas, mas a atrocidade das torturas é a mesma… a dor da agonia é a mesma… a morte prematura é a mesma… No silêncio, quebrado pelos gritos lancinantes das vítimas, transparece, em aparente inércia, a presença de Deus, que ouve o clamor e toma o lado de seu povo sofrido.
Dom Geraldo dos Reis Maia
Bispo de Araçuaí
