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Economia e ética

A palavra economia, como nos ensina o dicionário Houaiss, tem sua origem no grego oikonomía, atos, com significado de administração, direção de uma casa, organização, distribuição, disposição, ordem, arranjo, modo de funcionar dos diversos elementos de um todo. Criou-se até um ramo específico de estudos sobre a economia, tratada como “ciência que estuda os fenômenos relacionados com a obtenção e a utilização dos recursos materiais necessários ao bem-estar”. O termo pode ser mais bem entendido como gerenciamento, controle de receitas e despesas. As donas de casa sabem muito bem o que é “fazer economia”.

Em termos empresariais e estatais, economia passou a significar o gerenciamento do mercado. Como um dragão acorrentado, o mercado era gerenciado pelo estado. No regime dito comunista, as correntes do dragão eram mais arrochadas. Com o advento do neoliberalismo e sua política econômica do “Estado mínimo”, e a queda do comunismo europeu, foram liberadas as correntes do dragão, que se tornou indomável. Sim, o mercado ganhou vida própria. Agora estamos diante deste “mercado econômico globalizado”. Qual dragão insaciável, o mercado devora o meio ambiente, as criancinhas, as famílias, empresas e até culturas inteiras.

A economia mundial está cada vez mais difícil de ser gerenciada. Enormes somas de capital estão sendo investidas para saciar a fome desse terrível dragão. Guerras estão sendo travadas em seu nome, com fachadas de razões humanitárias. Como rezamos no salmo, “um abismo atrai outro abismo no fragor das cascatas” (Sl 42,8). Na verdade, a economia ultrapassou a ética. Foi criada uma pseudoética… Não importa mais que o mercado favoreça a vida humana. Importa que o dragão seja saciado diuturnamente, custe o que custar!

Pagamos alto preço por desvincular a economia da ética e da política. O instrumento que deveria estar a serviço da humanidade passa a escravizá-la com uma brutalidade sem precedentes. Poucas vozes ousam se levantar contra este poder opulento. Essas vozes são caladas pela falsa propaganda do poder das oligarquias, que procura desacreditá-las. É tarefa sempre mais difícil perceber onde está a verdade.

O dragão não pode continuar solto, indomável, devorando vidas humanas, culturas inteiras, biomas… É preciso submeter a economia aos valores da sociedade, aos valores da ética. E isso só se consegue com decisões políticas firmes em favor do bem comum. Não podemos consentir com um estado absoluto, nem com um mercado absoluto. Em primeiro lugar deve estar o ser humano, com a satisfação de suas legítimas necessidades e aspirações, organizado em sociedade. Em seguida, vem o Estado de Direito, como gerenciador da sociedade. E, depois, só depois, o mercado gerador de capital, a serviço não simplesmente do lucro dos poderosos, mas do bem-estar do ser humano.

Santo Irineu de Lião, na segunda metade do séc. II, consagrou o termo “economia” na linguagem teológica, referindo-se ao plano de Deus para a salvação, a “economia salvífica”. Na visão deste primeiro grande teólogo da era pós-apostólica, o ser humano encontra-se no centro dessa economia salvífica e está em processo de aperfeiçoamento até atingir sua plenitude. Deus é o grande dispensador dessa “economia” que eleva o ser humano à sua plena humanização: “a glória de Deus é o homem vivo e a vida do homem é a contemplação de Deus” (Adv. haer. IV, 20,7).

A Doutrina Social da Igreja procurou formular o conceito de “economia solidária” para caracterizar outro tipo de economia, baseado na ética, no respeito pela dignidade do ser humano, na solidariedade e no cuidado com o mundo criado. Trata-se de uma forma de produção, consumo e distribuição de riquezas pautada na autogestão, cooperação e valorização humana, e não no lucro, como apregoa o mercado livre. O Papa Francisco convidou especialistas para criar um movimento, uma iniciativa global, buscando a ressignificação da economia como sistema mais justo, inclusivo e sustentável.

Essa nova concepção que associa economia e ética passou a ser conhecida como a “Economia de Francisco e Clara”. Nas palavras do pacto firmado entre jovens e o Papa Francisco em 2022, trata-se de “uma economia que não deixe ninguém para trás, que reconheça e proteja o trabalho digno e seguro para todos, uma economia onde as finanças sejam amigas da economia real e do trabalho, uma economia que salvaguarde as culturas, as tradições dos povos, todas as espécies vivas e os recursos naturais da Terra”. É por esse caminho que somos chamados a trilhar, se queremos salvar o ser humano e o mundo criado.

Dom Geraldo dos Reis Maia
Bispo de Araçuaí

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