Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
post

Cultura da paz

Nesses últimos tempos, vêm se intensificando notícias de tristes acontecimentos de violência. Se não bastasse a terrível guerra entre Rússia e Ucrânia – e outras guerras planeta afora –, chegam-nos notícias de ataques de potências mundiais a outros países, com o objetivo de definir a geopolítica. Assistimos, atônitos, a invasão de um país da América Latina para remover o seu presidente. Não se trata aqui de fazer juízo sobre a atuação do mandatário em questão; trata-se de uma violação do direito internacional. E tudo parece estar normal…

Está se proliferando, na sociedade brasileira e no mundo, uma cultura de ódio, de intolerância e de vingança. O nosso país – reconhecido internacionalmente pela alegria de suas festas e pela ginga do futebol – está se tornando irreconhecível. Em muitos ambientes, destila-se violência, e a maldade permeia em muitos corações. Hannah Arendt fez a leitura da realidade da Segunda Guerra Mundial, e a sua teoria pode ser aplicada ao mundo de hoje. O mal vai se banalizando também entre nós…

Recordo-me dos tempos difíceis da pandemia. Muita coisa se disse, se escreveu e se publicou sobre as lições de humanidade que estávamos aprendendo com o isolamento físico, com a ameaça constante e até o risco de extinção da raça humana sobre a terra. Nem mesmo havia sido declarada a superação oficial da pandemia e nos esquecemos daquelas lições… Terminado o isolamento físico, o homem voltou a ser “lobo para o próprio homem”, como já havia sido anunciado pelo filósofo Tomas Hobbes.

Há 60 anos, o Papa João XXIII lançava importante encíclica sobre a paz na terra (Pacem in Terris, 11/04/1963). Num mundo dividido entre dois blocos opostos, o risco de uma guerra nuclear era iminente. Tal divisão era marcada simbolicamente pela construção do muro de Berlim. O Papa lançou um apelo apaixonado a cada país para contribuir pela libertação de todos os seres humanos, na comunhão de valores, conclamando a todos a construir o bem comum universal, posto a serviço do desenvolvimento total de cada pessoa humana.

Após tratar dos direitos e deveres do ser humano, João XXIII passou a verificar alguns sinais dos tempos, sempre com olhar de esperança, mas com os pés na realidade. O Papa acentuava que as relações precisam ser pautadas em quatro princípios: verdade, justiça, solidariedade dinâmica e liberdade. Espera-se que as pessoas venham a conhecer melhor os laços comuns da natureza que as unem, despertando-as para o amor que promove a colaboração leal e portadora de inúmeros bens.

A paz consiste na mútua confiança, assegura o Papa. É essa mútua confiança que estamos perdendo. Desconfiamos dos outros. O outro se tornou uma ameaça para a minha segurança e integridade, tamanho tem sido o avanço da cultura do ódio e da violência. Precisamos transpor essa contra-cultura à luz de princípios éticos e evangélicos: “Eu vos dou um novo mandamento, que vos ameis uns os outros. Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros. Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos se tiverdes amor uns pelos outros” (Jo 13,34-35).

Construir a cultura da paz supõe perdão e justiça. Não é possível construir a paz com o coração repleto de ódio e rancor. Desse coração, se não for curado, só sairá violência. Também não se constrói a cultura da paz num mundo de injustiças. A paz é fruto da justiça, como nos lembrou o Papa Pio XII, São Paulo VI e outros papas, à luz da Palavra de Deus.

Na mesma linha de seus antecessores, aprofundando o tema, o Papa Francisco nos diz, na sua inspirada encíclica Fratelli Tutti: “Sonhamos como uma única humanidade, como viajantes feitos dessa mesma carne humana, como filhos dessa mesma terra que hospeda a todos nós, cada um com a riqueza da sua fé ou das suas convicções, cada um com a própria voz, todos irmãos!” (FT,8). E conclui o Papa Francisco a sua encíclica sobre a fraternidade universal: “Com a potência do ressuscitado, deseja dar à luz um mundo novo, onde todos somos irmãos, onde haja lugar para todos os descartados de nossa sociedade, onde resplandecem a justiça e a paz” (FT,278).

O Papa Leão XIV, na sua primeira homilia do ano, nos apresentou “uma das características fundamentais do rosto de Deus: o da total gratuidade do seu amor, pelo qual Ele se nos apresenta (…) ‘desarmado e desarmante’, nu e indefeso, como um recém-nascido no berço. Tudo isso para nos ensinar que o mundo não se salva afiando espadas, julgando, oprimindo ou eliminando os irmãos, mas sim esforçando-se incansavelmente por compreender, perdoar, libertar e acolher todos, sem cálculos nem medos” (Homilia, 01/01/2026). É essa a grande iluminação para edificarmos a cultura da paz.

Dom Geraldo dos Reis Maia
Bispo de Araçuaí

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Confira
Últimas Notícias
Artigos
Acessar o conteúdo