
Na visão bíblica, o genuíno amor é descrito com as marcas profundas da paciência e da bondade. Quem ama de verdade não é orgulhoso, nem invejoso, vanglorioso, inconveniente, egoísta e não se irrita com facilidade (cf. ICor 13). Amar é praticar os Mandamentos do Senhor, impulsionados por ele mesmo, através do Espírito Santo, recebido no Batismo e reafirmado no Sacramento da Confirmação.
Importa hoje dar razão da nossa esperança, fundamentada no amor ao próximo, especialmente aos mais necessitados. Essa é uma atitude dissonante em relação à cultura do individualismo, que não é capaz de partilhar o que é acumulado. Não é possível amar com o coração petrificado e incapaz de dar passos de despojamento e valorizar a pessoa do outro, objeto para a prática do amor.
No ambiente vivido pelos primeiros cristãos, quando ainda não existia o espírito totalmente consumista de exclusão, a prática do amor fraterno era muito mais consistente. No livro dos Atos dos Apóstolos são citadas comunidades que experimentavam o verdadeiro amor, onde tudo era partilhado, podendo atender as necessidades das pessoas menos favorecidos, evitando exclusão (cf. At 4,32-37).
Há um desafio espantoso ao falar de excelência do amor em um país profundamente mergulhado nas atitudes de desamor. Amar é dar vida para o outro e não causar morte alheia. Morte em todos os sentidos, porque tudo que tira a possibilidade da defesa de uma vida saudável, acaba contribuindo para a morte. Isto está subjacente na destruição da natureza, que foi criada para dar condição de vida.
Não é caminho correto e nem saudável ir na contramão da vontade de Deus. Aliás, essa atitude passa a ser uma auto afronta, contra o amor projetado na criação. Existe um crescente adoecimento da sociedade em relação ao amor. Parece até um contra senso diante do bonito avanço da tecnologia, que não favorece a fraternidade. Pelo contrário, torna as pessoas mais desumanas e carentes de amor.
Amar não é uma simples confiança, mas adesão de vida, de autêntico compromisso com o outro. Foi o que fez Jesus, porque conseguiu amar até quando pendurado numa cruz, ao dizer: “Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!” (Lc 23,34). Aí está a excelência do amor, caminho de sofrimento e paixão, que não tem medida, nem limite e chega à doação total de vida.
Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo Metropolitano de Uberaba





