
Assim é chamada nossa Casa Comum, Planeta Água. Quando vemos as imagens do planeta, vistas à distância, verificamos que a Terra é de cor azulada, graças à abundância de água que nela existe. De fato, cerca de 70 por cento da Terra é composto por água (oceanos, mares, rios, lagos e gelo), enquanto somente 30 por cento é constituído por terra firme (continentes e ilhas). Cerca de 97,5 por cento da água é salgada, somente cerca de 2,5 por cento é água doce. Mesmo chamado de Terra, nosso planeta é caracterizado por água em abundância.
Dia 22 de março, fechando o ciclo do verão e iniciando o outono, comemoramos o Dia Mundial da Água. Trata-se de um dia especial para refletirmos o que temos feito com esse Planeta Azul, como estamos cuidando das nossas águas, que tipo de futuro estamos reservando às novas gerações… São questionamentos sérios, pois a Casa Comum se encontra em nossas mãos, para que cuidemos dessa grandiosidade e esplendor da natureza.
Como fonte de vida, a água é fator primordial para o surgimento de vida no planeta e a sustentação da vida de todos os organismos, desde os mais simples até os mais complexos, tanto animais como vegetais. Para marcar a data, o secretário-geral da ONU, António Guterres, divulgou uma mensagem lembrando que água potável e saneamento básico desempenham um fator fundamental na promoção dos direitos da saúde das mulheres e crianças.
Segundo Guterres, “quando o acesso à água é insuficiente, mulheres e crianças pagam o preço mais elevado. São elas que dependem de instalações sanitárias seguras, cuidam de familiares doentes devido à água contaminada e passam horas, todos os dias, captando água de fontes comunitárias superlotadas, uma tarefa que impede muitas meninas de frequentarem a escola”. Ele ressalta que “é tempo de os governos melhorarem os sistemas nacionais de água e de saneamento, através da melhoria da capacidade de prestação de serviços de distribuição, da formação da força de trabalho e de financiamento fidedigno”.
Continuando sua mensagem, o líder das Nações Unidas enfatiza que “os países desenvolvidos têm o dever de partilhar as tecnologias que possuem, o conhecimento especializado e o financiamento necessário para construir infraestruturas de água e saneamento seguras, sustentáveis e resilientes (…). E as mulheres devem estar presentes nos processos de tomada de decisão de forma a assegurar que estes sistemas respondem às suas necessidades”.
Infelizmente, a busca e o monopólio da água já estão sendo motivos de guerras e dominações. Começamos a perceber um deslocamento de interesses. Até a pouco tempo, faziam guerras e dominavam pelo poder do petróleo, o que ainda acontece. No entanto, a motivação maior passa a ser terras raras e minerais críticos, como fontes de energia que move as guerras e o mundo, mas principalmente a água… O interesse maior das dominações estrangeiras passa a ser a água, além das novas fontes de energia. O que fazer diante dos interesses das potências que dominam o mundo? Esse sério questionamento paira no ar, sem resposta. E o Brasil, que possui grandes reservas de água doce, em seus rios e aquíferos, está sob alerta…
A Palavra de Deus está regada de água, com várias simbologias, desde o Gênesis até o Apocalipse. “O vento de Deus pairava sobre as águas” (Gn 1,2), fecundando a matéria primeira criada, que serviu para toda ação criadora de Deus. Do Édem saía um rio para regar o jardim (cf. Gn 2,10). Mesmo com o desvio do ser humano, Deus não abandonou suas criaturas. As próprias águas do Dilúvio tornaram-se fonte de nova humanidade (Gn 9,1). Será a profecia de Ezequiel que descreverá a belíssima cena da água que brota do lado do Altar do Templo como fonte de vida para toda a natureza (cf. Ez 47,1-12). Já no Segundo Testamento, Jesus se apresenta à Samaritana, no Poço de Jacó, como “a fonte de água viva” (cf. Jo 4,14). Para entrar no Reino e fazer parte de seus seguidores, é preciso nascer de novo, através da água da vida e do Espírito (cf. Jo 3,5), orienta Jesus. E o Apocalipse se refere ao rio da água da vida, brilhante como cristal, que sai do trono de Deus e do Cordeiro (cf. Ap 22.1).
O Papa Leão XIV participou, no dia 1º de outubro do ano passado, da cerimônia de abertura da Conferência Internacional “Espalhando Esperança em prol da Justiça Climática”, organizada pelo Movimento Laudato si’ em colaboração com o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, Caritas Internationalis, dentre outras instituições. Nessa ocasião, o Papa abençoou um bloco de gelo proveniente da Groenlândia como símbolo da urgência climática global. A água resultante desse derretimento, realizou uma peregrinação inédita “da Groenlândia à Amazônia”, conectando fé, ciência e compromisso pela Casa Comum. Naquela ocasião o Papa assim se pronunciou:
“É preciso passar da recolha de dados para a atenção aos cuidados; dos discursos ambientalistas para uma conversão ecológica que transforme o estilo de vida pessoal e comunitário. Para quem crê, trata-se de uma conversão não diferente daquela que nos orienta para o Deus vivo, pois não se pode amar o Deus que não se vê, desprezando as suas criaturas, e não se pode dizer que somos discípulos de Jesus Cristo sem participar no seu olhar sobre a criação e no seu cuidado pelo que é frágil e ferido”. E conclui o Papa: “Deus perguntar-nos-á se cultivamos e cuidamos bem deste mundo que Ele criou (cf. Gn 2, 15), para benefício de todos e das gerações futuras, e se cuidamos dos nossos irmãos e irmãs (cf. Gn 4, 9; Jo 13, 34). Então, qual será a nossa resposta?”.
Dom Geraldo dos Reis Maia
Bispo de Araçuaí
