
Neste tempo da Quaresma em que a Igreja no Brasil reflete sobre o grave desafio da moradia, assistimos atônitos, tantas moradias sendo arrastadas pelas águas ou simplesmente se desmoronando em morros e encostas, especialmente na Zona da Mata Mineira. Lamentamos profundamente as várias perdas humanas, os incontáveis danos materiais causados e as sérias consequências ecológicas sofridas. A fúria das águas tragava tudo que vinha pela frente.
É triste pensar no choro das mães que perderam seus filhos, na desolação de filhos que perderam seus pais, na dor de pessoas que perderam suas famílias inteiras… Prestamos nossa profunda solidariedade a esses nossos irmãos e irmãs que buscam consolo na esperança que não decepciona! Também nos consternamos com vítimas que viram seus bens sendo levados pela correnteza dos rios que voltavam a seus cursos de outrora, invadindo ruas e avenidas… As enchentes desfaziam economias de uma vida inteira e sonhos que foram se edificando ao longo de décadas…
Os avisos de fortes temporais foram, certamente, emitidos pelos órgãos responsáveis, orientando as pessoas a deixarem suas moradias. O testemunho de Osvaldo Moraes sobre o desastre na Zona da Mata Mineira ilustra, com eloquência, essa triste realidade: “o que adianta uma pessoa que mora em área de risco receber um aviso de chuva intensa se ela não tem para onde ir ou não sabe o que fazer?”. Falta de alternativa e de sérias políticas públicas geram catástrofes anunciadas.
O Texto-base da Campanha da Fraternidade deste ano, no número 38, nos chama atenção para um fenômeno que incha nossas cidades, até mesmo no interior, em cidades pequenas: o êxodo rural. “As pessoas que vieram do campo jamais foram incluídas na vida urbana em sentido pleno. Foi um modelo de urbanização excludente, sem disponibilizar terra, moradia e infraestrutura urbana para quem chegou, além do baixo salário. 0 seu lugar foi sendo construído por quem chegava. Os mais pobres, que sempre foram a maioria — 70% das cidades são constituídas de pobres —, autoproduziram suas casas nas cidades a partir de relações de solidariedade, sem ter nenhum recurso para isso”.
O nosso pensamento vai primeiro para a falta de controle urbanístico, definição de plano diretor das cidades e políticas públicas de habitação. De outro lado, é importante observar a importância de fiscalização por parte dos poderes municipais e do Ministério Público. Quase sempre isso não é politicamente correto, pois não traz vantagens políticas para pessoas que se interessam em permanecer no poder, uma vez que contrariariam interesses, além de ter que destinar sérios investimentos financeiros, como desapropriação de imóveis para a construção de novos bairros e moradias dignas. Seja como for, é necessário investir na organização urbanística, elaborar um plano diretor condizente com a realidade do solo e da topografia local e implementar políticas públicas eficientes.
De outro lado, alarguemos nossa reflexão para além da moradia circunstancial. As intempéries do tempo presente, como aquelas ocorridas no passado recente em Santa Catarina, Porto Alegre, Petrópolis e, agora, na Zona da Mata Mineira, nos fazem pensar na relação moradia e ecologia. O saudoso e querido Papa Francisco sempre nos alertava que “tudo está interligado na Casa Comum”. A natureza manifesta as consequências de tantas intervenções que vêm sendo feitas: poluição, desmatamento, monoculturas, atividades minerárias, canalização de riachos, inchaço das cidades, construções em locais de risco, que antes eram leitos de rios etc.
O índice pluviométrico vem se descompassando consideravelmente. De um lado, vemos a concentração das chuvas em poucos dias, e até horas intensas, numa só região. Em contrapartida, verificamos secas intensas em outras localidades. É preciso saber diagnosticar esses sinais da natureza e constatar que a nossa Casa Comum está doente. E essa doença é causada por tantas interferências que pessoas e empresas têm feito na natureza, iludidas pela ganância do lucro fácil e do acúmulo de bens materiais. Percebe-se claramente que o desrespeito pela ecologia integral afeta os ecossistemas.
Assim sendo, provocamos o diálogo entre a temática abordada pela Campanha da Fraternidade deste ano, que é “Fraternidade e Moradia”, com o tema abordado por essa mesma campanha no ano passado “Fraternidade e Ecologia integral”. Os desafios enfrentados hoje em relação à moradia, provocados pela força da natureza, podem ter suas raízes nas agressões que temos infringido à Casa Comum.
O Texto-base da Campanha de 2025 nos alertava e apontava caminhos com acenos de esperança. E o texto continua atual, chamando-nos à ação. Proponho revisitá-lo com olhar de esperança: “É preciso alimentar um olhar otimista e realista (cf. LD, n. 16-18), convictos de que ainda podemos evitar os piores impactos das mudanças climáticas. Embora o tempo esteja se esgotando, temos um potencial de resistência que nos permite propor e buscar, através de um comprometido processo de conversão, medidas sustentáveis para manter um mínimo de equilíbrio na nossa Casa Comum. Mesmo com a deterioração da nossa relação com a sociedade e a natureza, a Esperança nos move a unir os esforços das ciências ao profetismo da fé, acreditando que, fazendo a experiência dos limites do planeta, poderemos superar o impasse existencial e ambiental em que vivemos” (Texto-base CF/2025, nº 136).Por fim, o Texto-base deste ano confirma essa realidade: “A crise ecológica ajudou a perceber que não se pode separar o ambiental e o social, que não há um problema ambiental e outro social, mas um único problema socioambiental. 0 problema da moradia é um problema de ecologia: tanto no que se refere a saneamento, resíduos sólidos, mobilidade, habitações precárias e em áreas de risco etc., quanto no sentido mais amplo e fundamental da natureza como nossa casa comum. É preciso desenvolver políticas de moradia digna e de proteção ambiental” (TB/2026, nº 149).
Dom Geraldo dos Reis Maia
Bispo de Araçuaí





