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Levaram a cruz e levaram o anel

Eu estava em minha casa, recém-chegado à diocese, quando recebi a notícia: havia ali algo precioso, guardado em um cofre. Tratava-se de uma cruz de ouro e de um anel de ouro do primeiro bispo. Os objetos lhe foram oferecidos, mas ele, em sua humildade, não quis usá-los. Utilizou-os apenas uma vez, porém sentiu que não ficava bem, diante dos pobres, ostentar uma cruz e um anel de ouro.

Assim, ficaram guardados como memória e relíquia histórica do amor do povo. Aquela cruz representava o amor do povo; aquele anel simbolizava a fidelidade do bispo para com o povo. Esse amor e essa fidelidade eram invisíveis e não precisavam ser exibidos. Por isso, permaneceram guardados por muitos anos, avaliados e reavaliados. Descobriu-se que possuíam um valor considerável, um valor imenso.

Os objetos preciosos foram, então, mantidos no cofre, talvez para serem vistos, na posteridade, como um sinal quase sacramental do amor do povo pelo bispo. O tempo passou, sucessores vieram, e esses objetos chegaram até mim. Em meu quarto, lá estava o cofre. Dois padres vieram avisar-me de que nele havia algo precioso. Aliás, nem foi aberto por eles, pois ninguém conhecia o segredo.

Chamou-se um especialista, que descobriu o mecanismo, e o cofre foi aberto. Que maravilha! Reluzente, belo, ouro maciço, valioso — e ali ficou. Aprendi o segredo do cofre. Em meu quarto, ele permanecia. Mas um certo medo começou a invadir-me: e se alguém, ousado, buscando o que não lhe pertence, me obrigasse a abri-lo? E se, nervoso, eu não me recordasse do segredo? Poderia ficar perturbado, talvez ser até machucado, ou mesmo morto, por causa de algo precioso que fora doado no passado.

Resolvi transferir o cofre do quarto para outro local: o arquivo. Lá permaneceram os objetos, juntamente com alguns documentos. Era um lugar reservado, protegido. Certo dia, precisei pegar alguns desses documentos. A cruz e o anel lá estavam. Porém, ao tentar fechá-lo novamente, não consegui. O cofre ficou apenas encostado.

Pensei: “Depois volto e o fecho.” E assim se passaram alguns dias. Até que, em viagem, recebi um telefonema:
— “O cofre estava aberto. Entraram e levaram.”

Não sabíamos quem. Não havia câmeras. Entraram por um acesso que jamais imaginei possível. Talvez tenham encontrado alguma facilidade, quem sabe uma janela aberta. E lá se foram a cruz, o anel e outros objetos preciosos — não apenas de valor econômico, mas de valor histórico.

Imagino que aqueles que os encontraram tenham sentido grande alegria. Talvez tenham sido vendidos por muito menos do que realmente valiam, em troca de algo passageiro, quem sabe até entorpecentes.

E assim, lá se foram a cruz e o anel.

Isso causou impacto, tristeza, angústia. Mas, com o tempo, compreendi algo que meu predecessor, lá nos primórdios da diocese, já havia intuído: por mais preciosos que sejam, esses objetos não constituem a força vital da Igreja.

O mais importante é a cruz invisível — aquela que Jesus pediu que todo discípulo tomasse a cada dia e O seguisse. Essa cruz ninguém pode roubar, pois é pessoal, íntima, está no coração de cada fiel.

Lá se foi o anel de ouro, precioso e valioso. Mas permanece o anel da fidelidade, que cada sucessor dos apóstolos deve guardar: fidelidade à Igreja de Cristo. Uma fidelidade interior, não apenas exterior.

Lá se foram a cruz e o anel.

Mas permanece a missão: conduzir a Igreja, carregar a cruz com amor e viver a fidelidade — sinal daquele anel simples, talvez humilde, mas de significado profundo: cuidar da Igreja, esposa de Cristo.

Lá se foram o anel e a cruz.

Aqui permanecem — e devem permanecer — o anel e a cruz que verdadeiramente importam: o amor a Cristo e o compromisso com o seu povo.

Dom Messias dos Reis Silveira
Bispo de Teófilo Otoni

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