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11fev2024

1ª LEITURA – Lv 13,1-2.44-46

Podemos dividir o texto em 3 partes:
a) O exame – Qualquer doença de pele deveria ser cuidadosamente examinada para ver se não era lepra. Lepra era uma doença mais ampla para os males da pele. Não se tinha o conhecimento de hoje nem a possibilidade de tratamento ou acompanhamento dos nossos dias. A pessoa encarregada do minucioso exame era o sacerdote. A ele competia declarar impura a pessoa leprosa.
b) O comportamento – O leproso deverá andar com as vestes rasgadas, os cabelos soltos e a barba coberta. E ainda deve gritar impuro! Impuro! Este procedimento era para manter as pessoas afastadas dos leprosos e os leprosos afastados das pessoas. Com esse cuidado ou medida profilática  evitava-se fisicamente a contaminação e religiosamente (ou legalmente) a impureza.
c) O isolamento – Enquanto estiver com a doença, ele será considerado impuro, deve ficar isolado e morar fora do acampamento pelas mesmas razões alegadas acima.

Parece muito estranho tudo isso. Percebe-se uma marginalização completa. Mas refletindo mais poderíamos considerar:
1) Eles não tinham naquele tempo nenhum recurso dos que dispomos hoje – conhecimento mais profundo da doença, remédio, médico e ambiente adequado para o tratamento.
2) Como evitar a contaminação senão através dessas tristes medidas profiláticas de precaução e isolamento!
3) Antes de jogarmos pedras nas leis do Primeiro Testamento poderíamos pensar: o homem e a mulher de cor, o pobre, o mendigo, a criança de rua, eles não contaminam. Não há nenhuma lei que nos obriga a ficar afastados; pelo contrário, Jesus nos mandou aproximar e viver em comunhão com eles. Por que, então, os marginalizamos tanto?

2ª LEITURA – 1Cor 10,31-11,1

O tema do contexto mais amplo é a possibilidade ou não de comer as carnes sacrificadas aos ídolos. A idéia geral é que comer carne que foi sacrificada aos ídolos é entrar em comunhão com os ídolos. Acontece que praticamente toda carne vendida nos mercados era anteriormente sacrificada aos ídolos. Como fazer? Paulo responde: “Ídolo não existe, logo, carnes sacrificadas aos ídolos nada têm de sagrado”; podem ser comidas tranquilamente. Mas há pessoas de consciência fraca e escrupulosa. Neste caso, diante dessas pessoas, vale mais o princípio da caridade do que o da liberdade. É preciso renunciar a este tipo de comida para não prejudicar o irmão. No texto de hoje, o apóstolo insiste que tudo o que o cristão faz deve estar relacionado com a glória de Deus: comida, bebida, ou qualquer outra atividade. Importante é não dar ocasião a críticas e a escândalos. Neste caso, deve-se evitar até o que é permitido. A caridade, de fato, exige que vivamos como Paulo, buscando agradar a todos e não procurando o próprio interesse. A finalidade do nosso comportamento é a salvação do outro. Paulo termina pedindo que os cristãos sejam imitadores dele como ele o é de Cristo. Aqui, temos um claríssimo texto bíblico mostrando a importância da imitação dos Santos como caminho para chegar a Cristo como único mediador. Só podemos imitar os santos, porque eles imitaram o Cristo. Não existe nenhum santo sem referência ao nosso único mediador Jesus Cristo, nem os santos do Primeiro Testamento. É a cruz de Cristo que salvou todos os homens antes e depois dele.

EVANGELHO – Mc 1,40-45

No evangelho de hoje, Jesus cheio de “materna” compaixão cura um leproso. Leproso era uma pessoa que a sociedade marginalizava. O livro do Levítico (cf. 1ª leitura) capítulo 13 contém proibições a respeito da lepra. O leproso, ou quem tem doença de pele, não podia aproximar-se de alguém, nem ninguém podia tocar nele sem ficar impuro. Curioso que aqui o leproso transgride a Lei, talvez pela excessiva confiança que ele deposita em Jesus. Também Jesus transgride a Lei de um modo mais grave ainda que o leproso, pois ele o toca com a mão. Aliás, Jesus sempre transgride a Lei, quando ela não é libertadora. Jesus se mostra assim superior a Lei e distante de todo tabu legalista. Ele supera  todo o legalismo marginalizador e alienante, por isso, ele é capaz de “mover-se de compaixão”, sentir a dor do outro e curá-lo. Se superássemos o nosso legalismo e a nossa insensibilidade, poderíamos fazer um bem imenso! “Se tu queres tens o poder de purificar-me”. Oração linda, confiante e restrita ao necessário. Precisamos aprender a rezar como o leproso; confiança total, respeito profundo pela soberania de Deus. Não podemos forçar a Deus; seria querer manipulá-lo, como, aliás, está acontecendo com uma infinidade de seitas, que sobrevivem através de “milagres” e a manipulação de Deus, da religião e do povo humilde e desesperado pela crise econômica. Não temos o direito de forçar a Deus, mas temos o direito de suplicá-lo. A Deus, porém, fica o direito de nos atender ou não. Nem sempre o que pedimos é o melhor caminho para a totalidade da nossa vida. Deus conhece o melhor caminho para nós. Se ele não nos atende agora, tenhamos a paciência  histórica. Soframos um pouco com nossas angústias, participando da cruz de Cristo e certamente raiará para nós o domingo da ressurreição. Ao sacerdote competia declarar que a pessoa estava purificada de seu mal. Jesus proíbe ao leproso a divulgação da cura. É o Segredo Messiânico, mas como guardar só para si a novidade que Jesus lhe trouxe?

Dom Emanuel Messias de Oliveira
Administrador Apostólico da diocese de Caratinga

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