No dia 28 de março, Dom Francisco Cota, presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Ecologia Integral e Mineração (CEREM), organismo da CNBB Regional Leste 2, participou de uma Celebração presidida por Dom Geovane Luís da Silva, bispo da Diocese de Divinópolis, na Comunidade de Casquilho.



A celebração, realizada na comunidade Santa Teresinha, foi marcada por forte participação popular, inclusive de famílias que já não residem mais no local, mas que retornaram para vivenciar um momento de fé, escuta e partilha. O encontro também esteve em sintonia com a proposta da Campanha da Fraternidade 2026, reforçando a reflexão sobre o cuidado com a Casa Comum.
A comunidade de Casquilho convive, desde a instalação da mina de ouro Turmalina, operada pela empresa canadense Jaguar Mining, com uma realidade de constante apreensão. O cenário se agravou a partir de 7 de dezembro de 2024, quando ocorreu o desmoronamento de uma pilha de rejeitos a seco, atingindo diretamente mais de 130 famílias — cerca de 250 pessoas — e provocando impactos em toda a comunidade e no meio ambiente, especialmente na biodiversidade, no solo e nos recursos hídricos.



Além dos danos socioambientais, o desastre afetou profundamente a dinâmica de vida da população, majoritariamente católica. Muitas famílias foram desalojadas e atualmente vivem em municípios vizinhos, como Pitangui, impossibilitadas de participar da vida comunitária na Paróquia do Sagrado Coração de Jesus. Estima-se que mais de 90 famílias estejam em moradias alugadas pela mineradora, enquanto a área segue em monitoramento para estabilização.



Durante a celebração, foram recordadas as dores vividas pela comunidade, incluindo relatos de moradores que perderam suas casas e vínculos construídos ao longo dos anos. A realidade local evidencia não apenas perdas materiais, mas também impactos humanos, sociais e espirituais, que não podem ser plenamente reparados por compensações financeiras.
O Ministério Público da Comarca de Pitangui classificou o ocorrido como crime ambiental, o que reforça a expectativa da comunidade por justiça, reparação integral dos danos e responsabilização dos envolvidos, conforme a legislação brasileira.
Em sua homilia, Dom Geovane destacou o sofrimento das famílias atingidas e ressaltou que a perda vivida ultrapassa qualquer possibilidade de reparação econômica, atingindo a dignidade e a história das pessoas.
Ao final da celebração, Dom Francisco Cota fez um pronunciamento enfatizando a gravidade da situação e a necessidade de responsabilização. “Este é um território martirizado. Isso não foi uma fatalidade, foi um crime e deve ser tratado como crime, dando nome aos responsáveis”, afirmou. O bispo também chamou atenção para a urgência de uma conversão ecológica e para os riscos de agravamento das consequências de modelos de exploração que impactam tanto a natureza quanto a vida humana.
Os bispos reafirmaram que a Igreja não pode se omitir diante de situações que ameaçam a vida. Ao contrário, deve estar presente junto às comunidades atingidas, manifestando solidariedade e assumindo o compromisso com o cuidado da Casa Comum e a promoção da justiça socioambiental.
Dom Francisco recordou ainda que a CEREM foi criada com a missão de enfrentar projetos que colocam em risco a vida, especialmente no campo da mineração, atuando ao lado das comunidades para cobrar medidas preventivas, evitar novos desastres e promover caminhos de justiça. Nesse contexto, reforçou a importância de perseverar na defesa da vida, consciente de que é necessário “remar contra a correnteza por justiça socioambiental”.








