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Moradia na pauta da fé

Moradia digna, relevante tema social, é também importante na pauta da fé. A sociedade, seus segmentos e representantes têm obrigações prioritárias diante de realidade desafiadora: o déficit de moradia digna na sociedade brasileira. São obrigações legais e morais, pois dizem respeito ao cuidado com o ser humano e o respeito à sua dignidade. Justamente por se tratar de um tema caro à dignidade humana, a moradia digna é também pauta da fé. O déficit habitacional afronta diretamente a sacralidade de cada pessoa. O compromisso cristão de contribuir para que a sociedade supere esse déficit vem da direção preciosa indicada por Jesus, em uma das máximas do Sermão da Montanha, narrado pelo Evangelista Mateus, ao indicar um caminho de conversão e de qualificação da vida. O Mestre orienta seus discípulos a se dedicarem à oração, ao jejum e à esmola – compreendida como gesto de misericórdia e de caridade dedicado ao semelhante. Não basta, pois, orar e jejuar, desconsiderando ou adiando os gestos de misericórdia. O caminho de conversão indicado por Jesus está na força e na fecundidade da tríade: com a oração e o jejum, é preciso também adentrar nos sofrimentos e nas necessidades do próximo.

Conversão inclui a disposição corajosa para a oferta de si, participando do sofrimento de irmãos e irmãs. Nessa perspectiva, ao considerar o quadro amplo e complexo da realidade social, com suas muitas necessidades e desafios, a Igreja Católica no Brasil, a partir da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), convida a sociedade a viver a Campanha da Fraternidade. São muitos irmãos e irmãs feridos na sua dignidade, com condições de moradia precárias, indignas. Tratar essa realidade de sofrimento é também compromisso de fé. Assim, no itinerário próprio do tempo da Quaresma, que convoca, de modo especial, ao exercício da caridade fraterna, solidarizar-se com aqueles que não têm habitação digna é gesto cristão de partilhar a dor dos sem-casa, dos que moram em condições precárias. A partir dessa partilha, é possível ajudar quem é desrespeitado em seus direitos fundamentais, em sua dignidade.

São muitas as feridas e pesos sobre os ombros dos que vivem indigna e inadequadamente. Neste ano, a Igreja do Brasil propõe iluminar a realidade da conversão, apelo quaresmal que vem da Palavra de Deus, da força envolvente das celebrações litúrgicas e dos atos de piedade, pela consideração e compromisso com a realidade sofrida dos sem moradia digna. O convite evidente é o de ser solidário pela caridade, ajudando a construir respostas concretas às necessidades emergenciais. Trata-se de compromisso de fé que contempla o engajamento cidadão para ajudar a construir políticas públicas capazes de efetivar mudanças urgentes na sociedade brasileira, pela superação do déficit habitacional, das discriminações, das ofensas e de tudo mais que fere a dignidade humana. A realidade da moradia é, pois, um desafio humano, social e interpelação que vem da fé.

Importante deixar-se iluminar por reflexões que promovam o conhecimento sobre a realidade da mordia no contexto brasileiro, para se sensibilizar. Esse conhecimento tem um farol iluminador: a verdade de fé que Jesus veio morar entre nós. Sua condição de nascer sem um lugar vincula-se à sua casa em Nazaré, onde, na presença de Maria e José, cresceu em graça e sabedoria. A casa é referência de dignidade e oportunidades para o crescimento humano e espiritual. Essa consideração sobre o significado da casa converte-se em compromisso vivo e iluminador da fé na tradição da Igreja: há uma dimensão social da fé, diante da necessidade dos pobres, inclusive daqueles que sofrem por não ter moradia digna. A Igreja, assim, busca contribuir para mostrar que a falta de moradia não

é apenas um problema individual, mas grave ferida social que merece ser adequadamente tratada. Esse tratamento, para efetivamente desencadear mudanças, precisa ser impulsionado pela escuta dos clamores dos pobres. O adequado reconhecimento de que a promoção do direito à moradia integra a pauta da fé possa impulsionar o compromisso cidadão de ajudar a sociedade brasileira a mudar seu rosto sofrido. Assim se vive a fé de modo autêntico, exerce-se a cidadania qualificadamente, assumindo e efetivando o apelo quaresmal.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

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