
Temos refletido e assistido, no atual cenário da história, à dramática realidade da moradia no Brasil. Motivados pela Campanha da Fraternidade deste ano, aprofundamos os desafios dessa triste realidade. Seria desalentador estagnarmos na mera contemplação desse verdadeiro drama social que assistimos no cenário nacional. Por isso, com a Igreja, somos chamados a lançar luzes da Palavra de Deus sobre essa realidade, na busca de caminhos e soluções para a superação desses desafios. O Texto-base da CF/2026 (TB/2026), no seu nº 176, citando o discurso do Papa Francisco aos sem-teto (24/09/2015), nos apresenta intensas luzes que podem nos orientar:
“Perante situações injustas, dolorosas, a fé oferece-nos a luz que dissipa a escuridão. (…) Não encontramos qualquer tipo de justificação social, moral ou de outro gênero para aceitar a carência de habitação. São situações injustas, mas sabemos que Deus está a sofrê-las juntamente conosco, está a vivê-las ao nosso lado. Não nos deixa sozinhos. (…) É a fé que nos diz que Deus está conosco, que Deus está no meio de nós e a sua presença incita-nos à caridade; àquela caridade que nasce do apelo de um Deus que não cessa de bater à nossa porta, à porta de todos para nos convidar ao amor, à compaixão, a darmo-nos uns aos outros. Jesus continua a bater às nossas portas, à nossa vida. Não o faz magicamente, nem o faz com truques, com vistosos placares ou fogos de artifício. Jesus continua a bater à nossa porta no rosto do irmão, no rosto do vizinho, no rosto de quem vive junto de nós”.
As primeiras páginas da Sagrada Escritura nos apresentam a terra, dom de Deus, “vista como espaço a ser habitado e cultivado para garantir a dignidade humana e a convivência com as outras criaturas” (TB/2026, nº 107). Eis aí o sonho de Deus para a sua criatura: espaço para habitação e harmonia paradisíaca (cf. Gn 1,31; 2,15). Quando a soberba e a ganância tomaram conta do coração humano, Deus não desistiu de seu sonho (cf. Gn 3,15). Continuou apontando novos caminhos para a humanidade acolher o seu projeto. É assim que contemplamos o que se seguiu ao dilúvio, a aliança com Noé (cf. Gn 9,1-17). A história da humanidade antiga que se seguiu continuou sendo marcada pelo domínio e pela luta por territórios e habitação. Abraão foi chamado por Deus para constituir um novo povo eleito, a fim de reavivar o sonho de Deus (cf. Gn 12,1-4).
Os descaminhos da história levaram os hebreus à escravidão no Egito. Então, Moisés foi chamado para conduzir e transportar esse povo para uma nova terra, onde correm leite e mel (cf. Ex 3,7-12). “Depois da libertação do Egito, dos 40 anos de vida no deserto (Ex 12—24) e da posse da Terra Prometida (Nm 20—36), surge a necessidade de fixar-se num determinado lugar, passando de um povo nômade para sedentário, e o termo ‘casa’ passa a significar a ‘terra ocupada’ e a ‘propriedade coletiva’’, como espaço para habitar e garantir sua subsistência e a de sua família por meio da agricultura” (TB/2026, nº 108). Assim, Deus realiza uma aliança com o seu povo eleito.
Mesmo tendo atravessado o deserto da purificação, o coração do povo de Deus permaneceu vulnerável ao egoísmo, à ganância e à soberba. Essa fragilidade continuou desviando esse povo dos caminhos da Aliança com Deus. Os profetas surgiam para denunciar esses desvios e apontar o horizonte da libertação, reacendendo a chama do sonho de Deus. Jeremias denunciou veementemente quem explora as pessoas para acumular suas mansões: “ai daquele que constrói seu palácio sem a justiça, e seus aposentos, sem o direito; que faz seu próximo servir de graça, sem pagar o seu trabalho. Ele pensa: ‘Construirei uma casa espaçosa, com amplos aposentos!’ (…) Tu, porém, não vês, nem pensas outra coisa a não ser teu lucro” (Jr 22,13-14a.l7a).
Encontra-se também, nas profecias, mensagem de condenação contra aqueles que “inventam leis injustas, dos escribas que referendam a injustiça para oprimirem os pobres no julgamento. Eles violentam a causa dos humildes do meu povo, fazendo das viúvas suas presas e roubando dos órfãos” (Is 10,1-2). Essas denúncias também se dirigem ao sistema que cobra excessivos tributos, que acumula na casa dos ricos e tira da mesa dos empobrecidos: “por isso: visto que pisoteais o pobre e dele tomais o tributo do trigo, vós, que construístes casas de pedra lavrada, não as habitareis; e plantastes vinhas seletas, não bebereis o seu vinho. Pois conheço vossas muitas transgressões” (Am 5,ll-12a).
Em contrapartida, essa situação inspirou a esperança de um novo céu e uma nova terra (de uma nova criação), na qual haveria uma convivência harmoniosa na terra, conforme anunciam os profetas acerca da volta do exílio e da era messiânica, para as pessoas que perseveravam fieis à aliança com Deus: “vão construir casas e nelas morar, plantar vinhas e consumir seu fruto” (cf. Is 65,16b-25; Am 9,14-15). Permanecia o sonho de Deus, acalentado pela esperança profética. Será através de Jesus de Nazaré, reconhecido como o “Verbo que se fez carne” (Jo 1,14), que esse sonho vai encarnar-se na história.
“O anúncio do Evangelista João –“e a Palavra se fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1,14) — é o lema da CF 2026. Ele expressa a Encarnação, quando o Filho de Deus assume a condição humana e vem morar entre nós, ser o “Emanuel”, Deus conosco (Mt 1,23;28,20). Neste versículo desemboca toda a Tradição do Antigo Testamento (AT) sobre a presença de Deus, que toma a iniciativa de fazer morada no meio do povo, mediante o Filho, ao tornar-se humano, ao vir se comunicar e estabelecer uma Aliança com a humanidade. Por isso, a condição humana de Jesus será o lugar da manifestação da glória de Deus” (TB/2025, nº 119). Ele é a tenda, a morada de Deus em meio à humanidade.
Citando ainda o Texto-base, no seu nº 128, encontramos a afirmação de que “na época de Jesus, havia muitas pessoas sem-teto, dado que é possível encontrar nos Evangelhos: indigentes, pessoas às margens, doentes etc. Essas pessoas receberam dele o carinho, a compaixão, a solidariedade e a libertação da marginalidade”. Assim, Jesus continua reavivando o sonho de Deus, que se revela bastante real no livro do Apocalipse: “Eu vi um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe. Eu vi, também, a cidade santa, a nova Jerusalém, descendo do céu, de junto de Deus, vestida como noiva enfeitada para o seu esposo. E ouvi uma voz forte que saía do trono, dizendo: ‘Esta é a morada de Deus-com-os-homens, e ele morará junto deles. Eles serão o seu povo, e o próprio Deus-com-eles será seu Deus’” (Ap 21,1-3).
Dom Geraldo dos Reis Maia
Bispo de Araçuaí





