
Há uma imagem muito estranha e emblemática do profeta Ezequiel, ao usar as palavras: “Eu vos farei sair de vossas sepulturas e vos conduzirei para a terra de Israel” (Ez 37,12). O autor alude ao problema da esperança, dos limites da vida humana, mas também a capacidade de reerguimento e nova vida. Falar de sepultura é tocar na realidade de morte, de onde pode surgir a vida plena em Deus.
A profecia proferida por Ezequiel aconteceu em tempo de exílio, quando o povo da promessa estava na condição de refugiado, em terras babilônicas e no desespero próprio de um presidiário. Nas suas palavras, ossos ressequidos (cf. Ez 37,2) podem ser recuperados e transformados em vida. Ele acena para a restauração do povo e sua volta para a terra da promessa, para a cidade de Jerusalém.
No meio de sofrimentos, onde está Deus, a esperança pode surgir como força libertadora. A missão dos profetas era evidenciar que Deus não abandona o seu povo. Isto não é diferente nos dias de hoje. O turbinar da cultura moderna com os desafios da violência, das guerras e ferimento da dignidade humana, não significa ausência de Deus, mas respeito que ele tem pela liberdade humana.
O mundo, sintonizado na estética e valorização do corpo, em detrimento da verdadeira força do espírito, não consegue sentir e perceber a dimensão real e a capacidade de resgate da esperança. Por isto, muitas pessoas partem para o campo do desespero, porque a elas falta espiritualidade que as sustentem nos momentos mais difíceis. Sem Deus, a vida perde o sentido e provoca a morte.
A cena bíblica de Jesus, quando cita Lázaro, Marta e Maria (cf. Jo 11,5), leva consigo a dimensão de desespero e consequente esperança. Lázaro tinha morrido e estava na sepultura há quatro dias. Marta sensibiliza o coração do Mestre, que a consola dizendo que Lázaro ia ressuscitar. Para Marta, a ressurreição era coisa de futuro. Jesus restaura a esperança de Marta ressuscitando Lázaro.
Em sintonia com o tema da Campanha da Fraternidade de 2026, “Fraternidade e Moradia” e com as realidades dos povos envolvidos com as guerras assassinas, podemos imaginar o tamanho de desespero de famílias por falta de casa e vendo moradias sendo destruídas por bombas potentes nessa insensibilidade de governos autoritários e provocadores de destruição e morte pelo mundo!
Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo Metropolitano de Uberaba
