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Moradia e territórios

A Igreja no Brasil propõe, no período da Quaresma, desde 1964, a Campanha da Fraternidade (CF) que proporciona conversão pessoal, coletiva, estrutural e ecológica. A cada ano são escolhidos um tema e um lema especiais para iluminar esta importante campanha proposta pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB. Neste ano de 2026, o tema escolhido foi “Fraternidade e Moradia”, com o seguinte lema: “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14).

O objetivo geral desta campanha é “promover, a partir da Boa-Nova do Reino de Deus e em espírito de conversão quaresmal, a moradia digna como prioridade e direito, junto aos demais bens e serviços essenciais a toda a população”. Logo na Apresentação do Texto-base da CF/2026 (TB-CF), os bispos da Presidência da CNBB assim se expressam: “Inspirados pelo mistério da Encarnação, que revela a proximidade amorosa de Deus com a humanidade, voltamos nosso olhar para a realidade dramática da moradia no Brasil. A falta de um teto digno não é apenas uma carência material, mas expressão concreta da exclusão social que nega a dignidade de filhos e filhas de Deus”.

Os bispos continuam a expressar a relação entre conversão pessoal e responsabilidades sociais inerentes à fé cristã: “Em tempos de tantos desafios sociais, a Igreja é chamada a ser pobre com os pobres, a fixar seu olhar no Senhor, mas com os pés na história. A conversão quaresmal não é apenas pessoal e interior, mas também comunitária e social, como ensina o Concílio Vaticano II. Por isso, esta Campanha é um chamado à conversão integral, que nos torne discípulos missionários comprometidos com a dignidade humana e o bem comum”.

O Texto-base nos apresenta os grandes frutos desta grande campanha realizada em todo o Brasil, desde suas origens, como inspiração das orientações pastorais do Concílio Vaticano II. Assim lemos no nº 7 do Texto-base: “Desde então, ela se tornou uma das principais ações evangelizadoras da Igreja no Brasil, alcançando, com suas propostas de oração, reflexão e ação, os mais longínquos rincões do nosso país, e um eloquente testemunho da tão necessária e desejada Pastoral de Conjunto. A CF é herdeira de muitas vidas que se entregaram e se entregam à causa do Evangelho por ouvir o chamado de Cristo e o clamor dos irmãos”.

Tratar o tema da moradia nos remete a um tema relacionado: território. Sem ele, não há moradia. O território é o espaço onde se instalam as moradias. O território é limitado, diferente dos bens de consumo que podem ser multiplicados de acordo com a demanda. Se existe uma luta pelos bens de consumo, a luta pelos territórios é mais intensa e mais grave. Há interesses de proprietários e empresários do agronegócio, das monoculturas e da atividade minerária, em detrimento das comunidades tradicionais, que privilegiam a ecologia integral.

A história da nação brasileira é uma história de invasões de territórios. Primeiramente, entre os habitantes autóctones que travavam suas batalhas pelo domínio dos territórios apropriados para suas permanências. Com a chegada dos europeus, os conflitos aumentaram e grandes civilizações foram dizimadas. O território Pindorama passou a ser cada vez mais invadido, a partir dos mares, interior afora, por onde adentravam os invasores à procura de terras e riquezas. A partir das “civilizações da orla”, os bandeirantes se apossavam dos territórios dos povos originários, que ficavam sempre mais acuados pelo interior do Brasil.

Os interesses pelos territórios continuam intensos nos tempos atuais, sempre motivados pelo lucro do capital. A monocultura se estende, invadindo territórios de tradição familiar. Pequenos proprietários veem seus territórios serem anexados a conglomerados para aumentar a produção, seja da cana-de-açúcar, seja da soja, do milho, ou do eucalipto… A cultura de subsistência vai cedendo espaço aos latifúndios de larga produção. Quando não invadidos, os pequenos territórios são anexados às grandes propriedades quase sempre a preço de banana. A atividade minerária age com o mesmo modus operandi. As propriedades de agricultura familiar, territórios quilombolas e indígenas passam a ser expropriados pelas grandes empresas de mineração.

Essa realidade gera constante êxodo rural. As famílias, que sempre viveram instaladas em suas pequenas propriedades, veem-se na obrigação de se mudar para a zona urbana. Aumenta a especulação imobiliária nas cidades e cresce o número de submoradias. Esse ciclo de moer gente desrespeita a dignidade do ser humano, e gera uma cultura de descarte da sociedade. É preciso estancar essa sangria e fixar o homem do campo no seu habitat, proporcionando a ele condições de viver dignamente, com sua moradia e sua pequena propriedade familiar de subsistência.

Segundo as reflexões do TB-CF, nº 136, “a casa ou a moradia, na Bíblia, está ligada à terra, ao trabalho e aos vínculos familiares, sendo um espaço para viver de forma digna. A falta de moradia, a exclusão, a migração por causa da fome ou da falta de recursos, a expulsão por causa da guerra, de dívidas, da manipulação jurídica ou da exploração são vistas como ruptura da Aliança. São pecados passíveis de condenação por parte de Deus, como é possível constatar nos oráculos dos profetas, na fala e nas atitudes de Jesus, pois a terra é um dom, não uma mercadoria”.

Não obstante tantos interesses sobre os territórios e o desrespeito à dignidade do ser humano, ainda há horizonte. A profecia do antigo povo de Deus “inspirou a esperança de um novo céu e uma nova terra (de uma nova criação), na qual haveria a convivência harmoniosa na terra, conforme anunciam os profetas acerca da volta do exílio e da era messiânica: ‘vão construir casas e nelas morar, plantar vinhas e consumir seu fruto’ (cf. Is 65,16b-25; Am 9,14-15)” (TB-CF, 118).

Inspirados pela Palavra de Deus, acreditamos que o respeito haverá de vencer os interesses; que o amor haverá de vencer o ódio, que o olhar do irmão que nos interpela haverá de vencer a ganância. “Vi então um novo céu e uma nova terra… O que está sentado no trono declarou então: Eis que eu faço novas todas as coisas” (Ap 21,1.5).

Desejo às nossas leitoras e aos nossos leitores uma ótima caminhada quaresmal, olhos fixos na madrugada da Ressurreição, para que nossos processos de conversão nos ajudem a discernir o que o Espírito nos diz hoje e nos ajuda a interpretar os sinais deste tempo presente, acolhendo Aquele que veio morar entre nós (cf. Jo 1,14). Tenhamos a coragem de alargar nossas tendas (cf. Is 54,2) para que a nossa morada seja espaço de acolhida e solidariedade. Então será Páscoa em nossas vidas!

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