Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
post
17set2023

1ª LEITURA – Eclo 27, 33-28,9

O livro do Eclesiástico pode ser visto como uma reação à imposição forçada de uma cultura e mentalidade gregas. Este fenômeno se chamou de helenização. O livro surgiu no início do século II a.C., e pretende preservar a religião, a fé e a identidade do povo judeu. O Eclesiástico é um livro sapiencial e podemos dizer que tem seu aliado político (que luta pelos mesmos ideais) nos livros dos Macabeus.
Nosso texto tem sabor de evangelho. A tônica é o perdão como abertura do relacionamento com Deus e com o próximo. O contrário do perdão poderíamos chamar aqui de rancor, raiva, ressentimento, vingança e injustiça. Talvez pudéssemos ver dois momentos no texto: Primeiro: o autor afirma que o relacionamento com o próximo condiciona o relacionamento com Deus. Quem alimenta estes sentimentos contrários ao amor e ao perdão bloqueia seu relacionamento com Deus, fecha automaticamente seu coração impedindo a Deus de exercer seu amor misericordioso. Deus não entra em coração fechado. Nossa oração perde o sentido, se o nosso coração não estiver aberto para o próximo. Nossa oração se torna ritualista, sem vida, de uma exigência sem fundamento, carregada de uma ousadia hipócrita. Quem reza nestas condições não conhece a Deus. Segundo: O autor faz algumas exortações para nos ajudar a mudar o nosso coração com relação ao próximo, a fim de perdoarmos como Deus perdoa, a fim de amarmos como Deus ama. Ele nos convida a pensar (meditar) no fim, na destruição e na morte, nos mandamentos e na aliança. Em síntese, estes pensamentos, por um lado, vão nos revelar a mesquinhez de nossos sentimentos, que nos levariam a perder o sentido da vida, que é tão breve, e, por outro lado, à grandeza do coração de Deus, que se fez nosso aliado apesar de nossas fraquezas.

2ª LEITURA – Rm 14,7-9

A leitura de hoje situa-se dentro de um contexto, que exige acolhida e respeito pelas convicções do irmão. Cada qual siga a sua convicção (v. 5). O assunto que antecede o nosso texto é o que se pode comer ou não, é o problema de dias de festa, etc. Uns tinham a cabeça feita em relação ao alimento, outros ainda ficavam preocupados com as antigas leis judaicas sobre alimentos puros e impuros, sobre calendários de festa, etc. Nós temos nosso modo de pensar, mas não podemos absolutizá-lo. Isto dificultaria nossa boa convivência e nos levaria a julgar o próximo. “Quem és tu que julgas o servo alheio?” (v. 4).
A propósito de servo, Cristo é mostrado aqui como o Senhor dos vivos e dos mortos. Em Roma, no tempo de Paulo, metade da população era escrava. O escravo, o servo, vivia em função do seu senhor e não em função de si mesmo. Pelo fato de pertencermos a Cristo Jesus, Paulo defende o argumento da boa convivência lembrando a nossa pertença a Cristo. Ele é o nosso Senhor e tudo o que fazemos deve ser em vista dele. “Viver e morrer” é uma expressão, que sintetiza a totalidade da nossa vida. Por isso S. Paulo diz: “quer vivamos, quer morramos pertencemos ao Senhor”. Poderíamos sintetizar o pensamento do apóstolo com a doxologia no final da oração eucarística: “Por Cristo, com Cristo, em Cristo, a vós, Deus Pai todo poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda a honra e toda a glória, agora e para sempre. Amem”.

EVANGELHO – Mt 18,21-35

Como dissemos, no comentário do domingo passado, a tônica do capítulo 18 (discurso sobre a Igreja-comunidade) é o perdão. O texto de hoje é totalmente voltado para isto. À pergunta de Pedro Jesus dá 2 respostas. Qual foi a pergunta? Pedro pergunta, já abrindo o coração para o perdão, se é até 7 vezes que a gente deve perdoar a ofensa do irmão. Pedro com este número já estava superando a justiça dos escribas e fariseus que limitavam o perdão até 4 vezes com relação ao mesmo erro. A resposta de Jesus surpreende, pois, apesar de responder em termos numéricos, (setenta vezes sete), ele quer dizer que o perdão é uma atitude de vida, não uma questão de quantidade. Se o perdão não for total e contínuo, ele deixa de ser perdão. Se se limita o perdão a uma determinada quantidade de vezes, como ser cristão depois? Fundamentar-se-iam em nome de Deus o ódio, a vingança, a violência, ou, no mínimo, uma vida de indiferença e descompromisso com o próximo. A primeira resposta de Jesus é, portanto, que não se pode pôr limites ao perdão, ele é uma atitude de vida.
Qual foi a segunda resposta de Jesus? É uma parábola para ilustrar e motivar o perdão aos irmãos como uma resposta de gratidão à gratuidade de Deus. Vamos sintetizar. Temos 3 cenas. 
Na primeira, o rei vai acertar contas com os seus empregados e perdoa o primeiro, que lhe devia uma quantia enorme. Simplesmente impagável - 10 mil talentos de ouro. Cada talento pesava mais de 30 quilos. O pobre homem devia, portanto, o equivalente a mais de trezentos mil quilos de ouro. O patrão reage nos moldes da justiça da época pregada pelos doutores da Lei e pelos fariseus. Mandou que fossem vendidos o devedor, sua mulher, seus filhos e seus bens para saldar a dívida. É curioso que o empregado caindo de joelhos suplica um prazo e promete pagar tudo! Mas pagar como? Nossa dívida com Deus é impagável. Mas diante de Deus, o inesperado acontece. O patrão teve compaixão e perdoou toda a dívida do seu empregado. Esta primeira cena mostra a grandeza do coração de Deus e a gratuidade do seu perdão. 
A segunda cena revela a mesquinhez do coração humano. Este mesmo homem encontra com um dos seus colegas que lhe devia cem moedas de prata, o equivalente a cem dias de trabalho, soma irrisória diante de trezentos mil quilos de ouro. Qual foi a atitude do homem? Ele agarra seu devedor pelo pescoço e exige que ele o pague. O devedor age do mesmo jeito  do homem que foi perdoado. Ajoelha e suplica um prazo. E a dívida era pagável. Mas não houve prazo, não houve perdão. Mandou jogar o pobre coitado na cadeia até que pagasse o que devia. Os colegas ficaram chateados e contaram ao patrão.
Aí vem a terceira cena: a atitude do patrão. Ele revela a mesquinhez do homem que não foi capaz de seguir seu exemplo de perdão e misericórdia. Então, indignado, “o patrão mandou entregar o empregado aos torturadores, até que pagasse toda a dívida”! Mas nossa dívida com Deus é impagável. Ou aprendemos a perdoar com a misericórdia de Deus ou estamos aniquilados. O versículo final nos indica que  o patrão misericordioso é Deus, o empregado mesquinho, com uma dívida impagável, somos nós. Jesus conclui mostrando a consequência da nossa mesquinhez: “É assim que o meu Pai que está nos céus fará com vocês, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão”.

Dom Emanuel Messias de Oliveira
Bispo diocesano de Caratinga
plugins premium WordPress Pular para o conteúdo