
Quaresma é tempo de jejuns, orações intensificadas e olhar solidário na direção dos pobres e sofredores. Tempo indispensável para uma inadiável educação espiritual. A Liturgia da Igreja, tesouro inesgotável, proporciona pedagogicamente um itinerário que leva à qualidade espiritual e humanística, essencial para enfrentar os desafios do mundo contemporâneo. O Papa Leão XIV, na sua mensagem para este percurso quaresmal de 2026, focaliza a importância e a necessidade do jejum da língua, capaz de abrir caminhos para expressivas qualificações existenciais. A necessária abstinência de alimentos é importante, considerando o expressivo número daqueles que adoecem pelo excesso de comidas e bebidas, em contraste com tantos outros, mundo afora, que enfrentam a fome. Mas o jejum da língua é também oportunidade para discernir e ordenar hábitos, cultivando a virtude da temperança, a fome de justiça e de paz.
Tudo deve concorrer para o desenvolvimento de grande sensibilidade espiritual, itinerário que salva o ser humano de suas mazelas, de escolhas contaminadas no relacionamento interpessoal. Essa sensibilidade leva ao desenvolvimento da competência humana para interpretar a realidade e nela interferir construtivamente. Sem sensibilidade espiritual perpetua-se o caos contemporâneo, com prejuízos às relações, agravados por uma reatividade acrítica que cresce no contexto de redes sociais. Tudo se desdobra em falatório pouco construtivo, aliás eivado de perversidades que envenenam discernimentos indispensáveis à busca pela verdade. Sublinhe-se, pois, a importância da mensagem quaresmal do Papa Leão XIV, ao focalizar que o jejum permite não só disciplinar o desejo, no combate à sua intrínseca tirania, purificando-o para torná-lo mais livre, mas também ampliá-lo de tal modo que se volte para Deus e se oriente para o agir no bem.
Concretamente, o jejum da língua é um caminho de qualificação que capacita o ser humano a partir da abstinência de palavras que atingem e ferem o próximo, sobretudo de modo covarde e anônimo. Costuma-se falar sobre tudo e sobre todas as coisas, buscando conquistar atenção a partir de uma linguagem quase sempre perniciosa e fecundada pela maledicência. A fofoca é uma das expressões do linguajar mordaz, sustentadora de juízos temerários, particularmente pela prática comum de falar mal dos outros, alimentando preconceitos, obstruindo o direito de defesa, disseminando calúnias que dizimam vidas e processos institucionais. O jejum da língua é uma prática qualificante e essencial na aprendizagem da gentileza, desenvolvendo a habilidade para empregar palavras acertadas que fortalecem a convivência saudável na família, no trabalho, nas redes sociais, no debate político e nos meios de comunicação.
O jejum da língua é oportunidade de qualificado exercício relacional para que palavras de ódio deem lugar a palavras de esperança e de paz. E semear palavras de esperança e de paz é relevante compromisso cristão. Os discípulos de Jesus, conscientes de que são morada do Espírito Santo, o Consolador, devem se notabilizar pela competência humana e espiritual de sempre dizer uma palavra que leve a alegria da esperança aos seus interlocutores, infundindo forças para superar fraquezas. Essa capacidade de se expressar qualificadamente é aperfeiçoada pelo jejum proposto pelo Papa, abstendo-se dos excessos de comentários, exercitando o silêncio para uma escuta mais profunda e amorosa, especialmente da Palavra de Deus. O jejum de palavras multiplicadas e ditas a esmo pode viabilizar uma escuta qualificada, com o devido reconhecimento da importância de se sensibilizar diante dos clamores dos pobres e sofredores. A multiplicação de palavras, com a disputa entre os que expressam opinião sobre tudo, tem levado as pessoas a adotar
um tom exageradamente alto, que prejudica a aptidão para escutar. Assim, o jejum disciplinar que leva a escutar mais, particularmente escutar Deus por sua Palavra Santa, é um corretivo terapêutico ao desejo doentio de querer dominar pela palavra pronunciada, ofuscando o brilho da nobreza que deve configurar cada pessoa. Compreende-se, pois, ser a quaresma um tempo especial, pois predispõe o ser humano a escutar Deus. Privar-se de ouvir Deus é optar por viver à mercê da escuta narcisista de si mesmo, o que leva ao caos relacional.
Importa levar a sério o jejum, que possibilita a adoção de uma vida sóbria, sem desperdícios e exageros, em respeito ao meio ambiente, de modo solidário aos pobres e desvalidos. Jejuar é um caminho no combate ao orgulho que ensoberbece e dá origem às disputas e ódios que se revelam de muitas maneiras, desqualificando o relacionamento humano. Jejuar de orgulhar-se demais e em todas as circunstâncias para aprender o valor da humildade como caminho do perdão e da reconciliação. O orgulho impede o conhecimento das próprias fraquezas e da reserva de maldades no mais recôndito do próprio coração, impedindo o ser humano de honrar Deus, seu Criador.
Do tesouro espiritual inesgotável da Igreja Católica, uma palavra de Isaac, o Sírio, pode inspirar a prática do jejum neste tempo quaresmal: “Deixa-te perseguir, mas não persigas. Deixa-te crucificar, mas não crucifiques. Deixa-te ultrajar, mas não ultrajes. Deixa-te caluniar, mas não calunies. Alegra-te com quem se alegra. E chora com quem chora. Este é o sinal da pureza. Sofre com os doentes. Aflige-te com os pecadores. Exulta com os que se arrependem. Sê amigo de todos. Porém, no teu espírito, permanece só. Estende o teu manto sobre o que caiu em pecado e cobre-o. Se não podes tomar sobre ti sua culpa e sofrer em seu lugar o castigo e a vergonha, não o censures”. Quaresma, delicadeza de Deus dedicada a cada peregrino, todo ser humano: tempo de jejuns para se conquistar qualidade de vida e nobreza no exercício da cidadania, itinerário para encontrar a reconciliação consigo mesmo, com o semelhante e com Deus.
Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte





